FUNDAÇÃO LUTERANA DE DIACONIA

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A Cruz da Boa Palavra

23-10-2015

Como os cristãos que transformaram a cruz de arma de tortura e morte em árvore da vida, os Kaiowá enfrentam as muitas cruzes históricas e atuais com a Cruz da Boa Palavra. Eles, como nós outros, querem a paz, mas não como o Estado e a sociedade brasileira lhes propôs até agora. Na sua consciência, a paz se constrói sobre um pedaço de terra de dimensões razoáveis, que lhe permita produzir e se reproduzir física e simbolicamente, que possibilite à terra se recuperar do stress causado pelo desmatamento e pelo uso de agrotóxicos. Então a terra se vestirá novamente de verde-azul, sua cor da paz.

Pastora Graciela Chamorro

Os povos indígenas contemporâneos no Brasil, como os de outros países do continente americano, sofrem as consequências das várias frentes da colonização europeia e da colonização interna liderada, sobretudo, pela elite política e econômica brasileira de turno.

O contato com os povos indígenas foi ao longo do século XVII e XVIII marcado pela violência. Os homens, cujos avós serviram como soldados e vaqueanos aos conquistadores do século XVI, foram preados como animais pelos bandeirantes que os levavam a São Paulo e Rio de Janeiro para vendê-los como escravos. As mulheres, muitas delas descendentes de mulheres submetidas sexualmente pelos conquistadores, tiveram essa mesma sorte. Na época, a terra não tinha muito valor, mas sim a mão de obra indígena. Os indígenas foram esquecidos, mas os bandeirantes se tornaram heróis, ganharam monumentos e deram nomes a avenidas, ruas, escolas e estradas.

No século XIX, o Brasil já “independente” abre novas frentes de ocupação, que para os indígenas eram tão coloniais como as frentes anteriores. No Sudeste e no Sul chegaram os colonos da Alemanha, Itália, Suíça e de outros países europeus. Os povos indígenas estavam lá onde esses novos colonos foram assentados. Velhas e novas formas de violência marcaram esta época para os colonos recém-chegados e para os indígenas. Desta vez, não interessava a mão de obra indígena, mas, sim, a terra. O fato é que nessas regiões surgiram cidades prósperas enquanto a presença indígena definhou.

No século XX, outras frentes de colonização descortinam os sertões do Centro-Oeste brasileiro. Há 80 anos funda-se a cidade de Dourados, em plena terra Kaiowá, com gente oriunda de Minas Gerais e São Paulo, entre outros. Mas os Kaiowá já conheciam até então a violência da guerra entre Paraguai e Brasil e a (semi)escravidão nos ervais explorados para exportação da erva-mate. A fim de proteger a fronteira com população brasileira, o governo brasileiro vende fazendas de 3.600 hectares a particulares, a partir de 1916; na década de 1940 assenta milhares de famílias em pequenas propriedades de 30 hectares. Estas duas ações causaram grandes perturbações na vida real e simbólica deste povo indígena.

O mato grosso, habitat tradicional dos indígenas desta região, desapareceu e surgiram imensas fazendas de monocultura. Os Kaiowá, ao contrário, não desapareceram, crescem mais que a média no Brasil, mas tiveram suas terras drasticamente reduzidas. Por décadas eles viveram nos fundos das fazendas, nas reservas onde foram comprimidos pelo governo, ou em terras de ninguém. No final da década de 1970, porém, eles começaram a se organizar e a reivindicar parte da terra que fora ocupada pelos seus avós. Desde então, os enfrentamentos com os proprietários legais das terras e com o Estado vêm se multiplicando. No momento, vive-se um novo pico de violência.

Estes Kaiowá falam muito na Cruz da Boa Palavra, da qual fluem o bom modo de vida, a justiça, a solidariedade, o diálogo que leva ao entendimento, a relação respeitosa e cuidadosa com a natureza, a oração que é uma espécie de energia que dá equilíbrio à própria terra, entre tantos outros fluidos vitais. Conhecemos na tradição cristã todas essas palavras-chave que também nos ajudam a acreditar que um mundo melhor é possível. 

Como os cristãos que transformaram a cruz de arma de tortura e morte em árvore da vida, os Kaiowá enfrentam as muitas cruzes históricas e atuais com a Cruz da Boa Palavra. Eles, como nós outros, querem a paz, mas não como o Estado e a sociedade brasileira lhes propôs até agora. Na sua consciência, a paz se constrói sobre um pedaço de terra de dimensões razoáveis, que lhe permita produzir e se reproduzir física e simbolicamente, que possibilite à terra se recuperar do stress causado pelo desmatamento e pelo uso de agrotóxicos. Então a terra se vestirá novamente de verde-azul, sua cor da paz.

Foto: CIMI/Encontro lideranças Guarani-Kaiowá