FUNDAÇÃO LUTERANA DE DIACONIA

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Celebração na FLD lembra vítimas e pede o fim do conflito na Faixa de Gaza

A equipe da FLD realizou um ato em apoio ao Povo Palestino, na quinta-feira, dia 7, na sua sede, em Porto Alegre (RS).  Coordenadoras e coordenadores do Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor (Capa), presentes para reunião com a FLD, participaram da celebração.

Depois da acolhida, foram lidos trechos de algumas manifestações de lideranças e organizações religiosas sobre o conflito (leia abaixo o texto completo da Carta Aberta de Entidades Judaicas contra a agressão à Gaza e a matéria sobre a carta de soldados israelenses que se opõem à ocupação e à violência contra à Palestina). Depois, em um gesto simbólico, foram colocadas flores em vasos, em memória das vítimas dos conflitos.

Deus da paz, derrama paz sobre nós, enche o nosso coração de paz.

Yarabba ssalami amter alayna ssalam,

Yarabba ssalami im la' qulubana ssalam.

Deus de paz, derrama paz sobre nós, dá paz a nossa terra.

Yarabba ssalami amter alayna ssalam,

Yarabba salami im'nah biladana ssalam.

Carta Aberta contra a agressão à Gaza


3 de agosto de 2014

Nós, judeus brasileiros e argentinos, não podemos ficar calados frente aos últimos acontecimentos em Israel e na Faixa de Gaza. A escalada bélica está transformando Gaza, uma das regiões mais pobres e densamente povoadas do planeta, em gigantesca pilha de escombros e cadáveres. Não são poupados mercados, escolas, mesquitas, residências de todos os tipos. Do outro lado da fronteira, israelenses vivem sobressaltados com o lançamento maciço de foguetes vindos da Faixa de Gaza, que visam, principalmente, a população civil.

Entendemos que, na origem do atual conflito, existe uma rede complexa de causas. No terreno político imediato, há uma clara tentativa israelense de inviabilizar, manu militari, o governo de unidade nacional palestino, anunciado em junho passado. É importante lembrar que este governo seria formado por tecnocratas e o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, declarou que haveria um reconhecimento imediato do Estado de Israel, base para negociações de paz. Aos extremistas abrigados no atual governo de Israel não interessa o caminho que leve a um Estado palestino independente. O campo militar completa o terreno político. As armas traduzem a indisposição ao diálogo que os fundamentalistas de ambos os lados alimentam há muito tempo.

A ocupação de territórios palestinos por colonos israelenses, condenada inúmeras vezes pela comunidade internacional, nunca parou desde 1967 e é a grande causa estrutural do conflito israelense-palestino. Há uma ampliação permanente dos assentamentos ilegais, com chancela estatal e recursos portentosos dos aliados de Israel. A ocupação oprime a população palestina de diversas formas, que vão do terror militar às crescentes dificuldades de locomoção. Os israelenses acabam sendo, também, vítimas desta política colonial. Sua sociedade canaliza para os assentamentos recursos essenciais para o desenvolvimento do país. Os colonos, fanatizados por miragens messiânicas, têm peso relevante na política do país e envenenam a alma nacional com posturas racistas e excludentes. As consequências da brutalidade dos militares em território palestino são devastadoras para a psique dos jovens, muitos dos quais têm se recusado a servir nestas áreas.

Existe uma falácia perigosa por trás de bombas, mísseis e morteiros. Com a sofisticação da tecnologia bélica, criou-se a ilusão de que há uma solução militar para o conflito israelense-palestino. Ela perpassa casernas, bunkers e formadores de opinião. É preciso dar um basta muito firme a essa tendência, que só adia, com enorme sofrimento, a indispensável negociação entre as partes. Enquanto falam as armas, silencia o Homem.

Tendo em vista estas observações, reivindicamos:

  • Um imediato, incondicional e permanente cessar-fogo entre Israel e a Faixa de Gaza, com a retirada das tropas israelenses. Que o cessar-fogo seja supervisionado pelos capacetes azuis da ONU.
  • Desocupação dos territórios palestinos, estabelecendo-se novas fronteiras com base nas linhas existentes antes da guerra de junho de 1967 e respeitando-se a resolução número 242, da ONU, aprovada em 22 de novembro de 1967.
  • A implementação da fórmula dois povos para dois Estados, com reconhecimento mútuo e garantias para a segurança de ambos. Que o Estado palestino, sem descontinuidade territorial, tenha direito a manter todas as instituições definidoras de um estado moderno.
  • O combate a todas as manifestações de antissemitismo originadas no conflito entre os dois povos. Repudiamos energicamente as tentativas de criminalizar todo o povo judeu por conta de atitudes dos governos israelenses.

Assinam: ASA – Associação Scholem Aleichem de Cultura e Recreação (Rio de Janeiro – Brasil); DAF – Associação David Frischman de Cultura e Recreação (Niterói – Brasil); Clube de Cultura (Porto Alegre – Brasil); Casa do Povo/ICIB (São Paulo – Brasil); ICUF – Ídisher Cultur Farband (Argentina)

A carta dos soldados isralenses que se recusam a lutar em Gaza

Por Kiko Nogueira, diretor adjunto do Diário do Centro do Mundo. Publicada no dia 23 de julho de 2014

O serviço militar israelense é obrigatório para homens e mulheres. Movimentos de resistência são comuns. O primeiro caso conhecido é de 1954, quando um advogado, Amnon Zichoroni, pediu para ser dispensado por ser pacifista. Em 2004, cinco pessoas foram condenadas a um ano de prisão por não se alistarem.

Em março, sessenta jovens entre 16 e 19 anos escreveram um manifesto destinado ao primeiro ministro Binyamin Netanyahu em que diziam  recusar o alistamento pois se opunham à ocupação dos territórios da Palestina.

Agora, são 51 soldados que se levantaram contra as Forças de Defesa, alguns deles na reserva. Eles escreveram uma carta aberta no Washington Post explicando os motivos. O texto chega no momento em que a violência recrudesce na Faixa de Gaza, com a possibilidade cada vez mais remota de um cessar-fogo nas próximas horas.

Até agora, pelo menos 630 palestinos morreram e 3 mil estão feridos. Mais da metade são civis. Do outro lado, 31 israelenses tombaram, dois deles civis.

A carta é um documento eloquente sobre a tragédia e oferece uma visão da mentalidade das forças armadas israelenses. Para os signatários, o exército usa métodos de regimes opressivos contra a população de Gaza e da Cisjordânia e perpetua as desigualdades na sociedade israelense.

Eis alguns trechos. O original está aqui:

Em Israel, a guerra não é apenas a política por outros meios — ela substitui a política. Israel já não é capaz de pensar em uma solução para um conflito político exceto em termos de força física; não admira que seja propenso a ciclos de violência mortal que nunca terminam. E, quando os canhões disparam, nenhuma crítica pode ser ouvida. 

O exército, uma parte fundamental da vida dos israelenses, também é o poder que governa os palestinos que vivem nos territórios ocupados em 1967. Desde que ele passou a existir em sua estrutura atual, somos controlados por sua linguagem e mentalidade: dividimos o mundo entre o bem e o mal, de acordo com a classificação dos militares.

Os militares têm um papel central em todos os planos de ação e propostas discutidas no debate nacional, o que explica a ausência de qualquer argumento real sobre soluções não-militares para os conflitos de Israel com seus vizinhos. 

Os palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza são privados de direitos civis e direitos humanos. Eles vivem sob um sistema legal diferente de seus vizinhos judeus. Isto não é culpa exclusiva dos soldados que operam nesses territórios. Muitos de nós servimos em funções de apoio logístico e burocrático; lá, descobrimos que todo militar ajuda a implementar a opressão aos palestinos. 

Muitos soldados que trabalham longe de posições de combate não resistem porque acham que suas ações, frequentemente rotineiras e banais, não têm relação com os resultados violentos em outros lugares. E as ações que não são banais — por exemplo, decisões sobre a vida ou a morte de palestinos tomadas em escritórios a quilômetros da Faixa de Gaza — são confidenciais, portanto é difícil um debate público sobre elas. Infelizmente, nós nem sempre nos recusamos a cumprir as tarefas que nos foram encarregadas e, desta maneira, contribuímos também para a violência. 

O lugar central do militar na sociedade israelense, e a imagem ideal que ele cria, serve para apagar a cultura e a luta dos mizrachi (judeus cujas famílias são originárias de países árabes), etíopes, palestinos, russos, ultra-ortodoxos, beduínos e mulheres. 

Há muitas razões para as pessoas se recusarem a servir no exército israelense. Mesmo que tenhamos diferenças de formação e motivação, nós escrevemos esta carta. No entanto, contra os ataques a aqueles que resistem ao serviço obrigatório, apoiamos os resistentes: os alunos do ensino médio que escreveram uma declaração de recusa, os ultra ortodoxos que protestam contra a nova lei de conscrição, e todos aqueles cuja consciência, situação pessoal ou econômica não permitem que sirvam. Sob o pretexto de uma conversa sobre a igualdade, essas pessoas são obrigadas a pagar o preço. Não mais.