FUNDAÇÃO LUTERANA DE DIACONIA

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Nem tão Doce Lar provoca curiosidade e depois reflexão no público visitante

Em vez de flores, chocolates ou cartões de felicitação, as mulheres que ocuparam a Praça Nereu Ramos, em Joinville (SC), na manhã do dia 8 de março, tinham nas mãos panfletos e microfone. Três ações promovidas pelo Movimento Mulheres em Luta marcaram o Dia internacional da Mulher, focando principalmente na superação da violência contra a mulher e buscando resgatar o tom politizado da data. A exposição fica na cidade até o dia 25 de novembro, circulando entre diversos bairros.

A Nem tão Doce Lar, de autoria da Fundação Luterana de Diaconia (FLD), foi uma das atividades, organizada pelas mulheres do Centro dos Direitos Humanos Maria da Graça Brás (CDH), de Joinville, do Fórum da Mulher Joinville e do Departamento de Diaconia da Comunidade Evangélica de Joinville (da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB).

No espaço que representa os cômodos de uma casa, objetos e mensagens colocados em lugares estratégicos, aliados à disposição dos móveis, mostram rastros claros de violência doméstica. Em um lugar que deveria ser acolhedor, o retrato de uma rotina permeada de agressões é representado de forma tão sutil e cotidiana – e ao mesmo tempo tão gráfica – que chega a “causar arrepios”.

À medida que se caminhava por entre os móveis, desenrolava-se a experiência impactante e emocionante de entender que utensílios encontrados em casa podem virar armas, brinquedos quebrados mostram que crianças estão expostas à violência, um café na cama e um pedido de desculpas num bilhete pode significar agressões repetidas, uma mala esquecida no canto representa as frustradas ou impedidas tentativas de fugir deste círculo vicioso.

Para a coordenadora do Departamento de Diaconia, pastora Vera Cristina Weissheimer, a exposição é uma denúncia. Ela explicou alguns dos principais pontos que a exposição aponta: o elemento religioso, muitas vezes usado como desculpa para submeter a mulher à opressão e à resignação, o impacto da violência doméstica nas filhas e os filhos, os estereótipos de feminino e masculino impostos desde a infância – vistos, por exemplo, no quarto de cor-de-rosa para elas e azul para eles, na diferenciação dos brinquedos, que representa trabalho doméstico para elas e dá liberdade para eles – e que “ensinam que os meninos têm poderes sobre as meninas”.

Ainda, no pedido de desculpas, estabelecendo um “período de lua de mel”, em que o homem torna-se doce nos intervalos em que a agressão não acontece, e mantendo a mulher num ciclo, leva-a a acreditar que a violência não vai se repetir. “Afagar para, depois, bater de novo”, resume Vera.

"As pessoas entram curiosas e saem pensativas”, disse a pastora sobre a reação de quem visitou a exposição. Para ela, foi marcante a fala de uma mulher, acompanhada do marido, que esperou na entrada enquanto a esposa passava pelos "cômodos" da casa. Antes de sair, na porta, conta Vera, a mulher declarou “é bem assim que acontece”.

O projeto da exposição em Joinville inclui uma equipe de assistentes sociais e técnicos de saúde para amparar as visitantes vítimas de violência doméstica. O objetivo é “articular a rede de atendimento e proteção”, explica a técnica de saúde, integrante do fórum e do colegiado do CDH, Tânia Crescêncio. Ela conta que a equipe, toda composta por voluntárias e voluntários, passou por oito horas de formação ministrada pela FLD, para atuar no acolhimento.

Todas e todos visitantes receberam materiais informativos sobre combate à violência contra a mulher e acesso à saúde. No panfleto que explica a instalação artística, há uma lista de números úteis para denúncia e atendimento.

O material também propõe um exercício de conscientização: “Conte de um a 15 – um, dois, três… Neste curtíssimo espaço de tempo, 15 segundos, um mulher é agredida no Brasil”.

Resultado concreto

A instalação da Nem tão Doce Lar é resultado concreto do Curso de Multiplicadoras/es promovido pela FLD em outubro de 2012, em São Leopoldo (RS). Foi dali que surgiu a vontade da pastora Vera e da liderança Mariane Maier de levar a exposição até aquela cidade.

Para viabilizar a proposta, o assistente de projetos da FLD, Rogério Oliveira de Aguiar, esteve em Joinville nos dias 21 e 22 de fevereiro, promovendo capacitação para a equipe de acohedoras/acohedores. “A metodologia usada atendeu a diversidade presente nos grupos”, afirmou a pastora Vera. “Não é um assunto fácil, mas a clareza na apresentação e na abordagem do tema acalmou ânimos e aproximou as pessoas da metodologia da exposição interativa.” Para ela, “é preciso sensibilidade e jogo de cintura para trabalhar temas como a violência doméstica e relações de gênero. A turma ficou motivada para a reflexão”.

Texto: Carolinne Sagaz (http://www.amargem.info/) e Susanne Buchweitz, Assessoria de Comunicação da FLD


Foto: Jéssica Michels