FUNDAÇÃO LUTERANA DE DIACONIA

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Participantes conhecem a 'flor" do bem estar para o atendimento a comunidades

Muita escuta e muita atividade está mobilizando 26 pessoas desde quarta-feira, 26 de junho, durante a primeira Oficina Básica de Apoio Psicossocial de Base Comunitária em Emergências (APBC), promovida pela FLD em Florianópolis (SC). As e os participantes – 13 mulheres e 13 homens – vêm de Alagoas, Amazonas, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e têm as mais variadas experiências em termos de desastres – tanto em atuação quanto em vivência.

Evony Stöcker Hax, de São Lourenço do Sul (RS), teve sua casa inundada em março de 2011. “Ninguém acreditou quando disseram que a água estava vindo”, relatou. Devido a fortes chuvas no interior do município, o arroio São Lourenço transbordou de madrugada e alagou a área central da cidade, que fica às margens da Lagoa dos Patos, a 200 quilômetros de Porto Alegre. Quinze mil pessoas foram atingidas. Mais de três mil ficaram desabrigadas e perderam tudo. Sete morreram.

O casal Maria Goreti e Udomar Krueger, de Blumenau (SC), relembrou o evento de novembro de 2008, quando o Vale do Itajaí foi atingido por chuvas intensas e deslizamentos. “Parecia que estávamos no meio de uma guerra”, disse Goreti. “O exército, helicópteros e tanques circulavam à volta, o tempo todo.”

O engenheiro agrônomo do Conselho de Missão entre Indígenas (Comin), José Manuel Palazuelos Ballivian, de Guarita (RS), veio para entender melhor a proposta de apoio psicossocial de base comunitária. Da mesma forma, o casal Valdenir e Rosana Markus, de Florianópolis, que quer se envolver de forma mais incisiva com o tema. O pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Reinoldo Gluck Neumann, é pastor vice-sinodal do Sínodo Centro Campanha Sul e mora em Santa Maria (RS). "A tragédia com a qual eu convivi foi a da morte de dezenas de jovens no incêndio da Boate Kiss", contou. "É preciso apender para lidar com uma tristeza e desespero como foi lá".

Apoio psicossocial

Apoio psicossocial é um conceito relativamente novo. Na década de 90, especialistas em saúde mental que respondiam a desastres em diferentes culturas perceberam que o modelo de atendimento individualizado é impraticável e até prejudicial em emergências. A maioria das pessoas vai conseguir lidar com tais situações com pouco ou nenhuma ajuda externa se o reestabelecimento dos laços familiares e da comunidade for apoiado.

A base do trabalho considera que o bem estar individual e coletivo depende de várias áreas, que estão inter-relacionadas. O objetivo é criar um ambiente que permita a pessoas e comunidades recuperarem-se após um evento traumático. Isso é possível se o auxílio considerar diferentes dimensões, que, em equilíbrio, resultam em bem-estar: espiritual, cultural, social, material, biológico, emocional, mental, circundadas pelas ideias de participação, segurança e desenvolvimento.

E apoio psicossocial deve ter sua base na comunidade. O trabalho de atendimento e de recuperação é facilitado através do esforço feito pela própria população afetada e, sempre que possível, pelo trabalho com programas locais pré-existentes. Apoio psicossocial de base comunitária é sobre como ajudar as comunidades afetadas a recuperar suas conexões, sua voz, sua sabedoria e recursos, de forma que elas próprias possam decidir sobre o seu futuro. É contribuir para a recuperação da esperança, dignidade, bem estar social e um senso de normalidade.

Princípios orientadores do APBC/Aliança ACT

  • Promover os direitos básicos e a dignidade das mulheres, homens, meninas e meninos, sem discriminação, para o bem-estar geral, evitando angústia, medo e dor desnecessários (ex. físico, emocional e espiritual).
  • Incluir considerações sociais e psicológicas em todos os setores de atuação da ACT (ex. água e saneamento, subsistência, abrigo, saúde e segurança).
  • Construir sobre as estratégias de autoajuda comunitárias, promovendo a apropriação e o controle, por parte da comunidade, sobre os recursos, usando processos participativos de comprometimento e de tomada de decisões.
  • Promover o retorno do funcionamento otimizado das comunidades afetadas e indivíduos, através de seus envolvimentos em atividades sociais e encontros nas estruturas locais, como escolas, centros comunitários, igrejas, mesquitas e organizações locais.
  • Reconhecer e encorajar a comunidade a acreditar em sua própria capacidade de mudança e garantir o bem-estar geral, utilizando seus próprios recursos.
  • Promover práticas positivas de curas comunitárias, enfatizando as estruturas de apoio familiares e comunitárias para atender necessidades individuais e coletivas.
  • Atender as necessidades espirituais das pessoas para manter a boa saúde mental e o sentimento de pertença e conexão.
  • Salientar a resiliência e a esperança da comunidade por sua recuperação e sustentabilidade a longo prazo, nutrindo sua capacidade de crescimento.

FLD na área de emergências

Com o crescente aumento de desastres, a FLD, que atua em todo o Brasil na área de desenvolvimento, vem assumindo o desafio de atuar também na ajuda humanitária. Além disso, integra a Aliança ACT, uma rede global de igrejas e organizações ligadas a igrejas, que trabalham de forma conjunta em emergências, desenvolvimento a longo prazo e incidência.

A partir deste contexto, a FLD está recebendo formação na área de emergências e de redução de riscos de desastres, com o apoio da Ajuda da Igreja Norueguesa (AIN). Em 2012 o projeto recebeu uma oferta do Sínodo Brasil Central (da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil). Em 2011, um mecanismo de atuação em emergências foi elaborado pela FLD, junto com a IECLB, propondo que a atuação da FLD/IECLB se dê na perspectiva não só da resposta a desastres, mas também da prevenção, preparação e reabilitação, sustentadas na abordagem de Apoio Psicossocial de Base Comunitária. A formação de parte da equipe da FLD nesta área se deu em 2012 junto à Aliança ACT, com o suporte e formação pela Igreja da Suécia.

O curso básico oferecido em Florianópolis é o primeiro organizado pela FLD. A proposta é capacitar pessoas no âmbito da abordagem, a fim de que possam ser multiplicadoras em seus contextos de atuação. Dentre os temas tratados estão o conceito de bem estar, princípios orientadores para o apoio psicossocial, primeira ajuda psicológica em contextos de desastres, gestão integrada de riscos e mobilização comunitária.