Dona Deleci: vozes de mulheres negras que ecoam pelo Pampa

Dona Deleci: vozes de mulheres negras que ecoam pelo Pampa
Foto: Rocheli Wachholz

O vento minuano, que sopra cortante nos invernos do Bioma Pampa, conhece bem as mãos de Dona Deleci Nogueira Soares, moradora da Comunidade Kilombola do Boqueirão, em São Lourenço do Sul, Rio Grande do Sul. Aos 77 anos, essa mulher kilombola carrega na pele as marcas de uma resistência que não se aprende nos livros. Livros, aliás, que lhe foram negados muito cedo.

De uma família muito humilde, Dona Deleci conta que o que sabe, principalmente sobre números, aprendeu com o irmão gêmeo, que estudou enquanto ela foi privada desse direito. Por ser menina, precisava, ainda muito pequena, ajudar a cuidar dos irmãos. Ao todo, eram sete irmãs e irmãos e Dona Deleci era a segunda mais velha.

“A nossa infância foi muito difícil, passamos por muitas dificuldades. Eu não pude estudar como o meu irmão que é gêmeo, pois precisava ajudar a cuidar dos meus irmãos mais novos.”

Enquanto o irmão frequentava a escola, Dona Deleci aprendeu a ler o tempo, a observar as chuvas e os ciclos das estações e a entender como se cultiva a terra, mas não teve acesso à alfabetização.

A vida humilde também foi marcada pelo racismo e pela exploração do trabalho. Em um dos lugares onde trabalhou, percebeu que receberia menos do que as outras pessoas no dia do pagamento. Como não era alfabetizada, o empregador achou que ela não saberia perceber a diferença.

“Num dos lugares que trabalhei, no dia do pagamento, nós éramos cinco pessoas e eu fiquei para o final. Quando fui receber a minha parte, vi que era menos do que a dos outros. Recusei tudo.”

Dona Deleci casou aos 22 anos e tornou-se mãe de sete filhas e filhos. Trabalhou principalmente em propriedades vizinhas para garantir o sustento da família. Durante muitos anos, as condições eram difíceis.

“Antigamente a gente não podia nem comprar material de limpeza. Roupa nova, nunca podíamos comprar. A gente usava o que ganhava e quando não servia, cortava, diminuía.”

Hoje, fala com orgulho das conquistas da família. Duas de suas filhas têm diploma universitário, algo que foi construído com muito esforço. Uma delas chegou a caminhar até a escola para que o dinheiro da passagem pudesse ser usado na compra de alimentos. Em outra ocasião, depois que o único par de tênis da filha derreteu no forno do fogão a lenha, Dona Deleci procurou uma vizinha para conseguir outro par para que ela continuasse estudando.

“Hoje as minhas filhas são alguém na vida.”

IMG 2575 scaled
Foto: Rocheli Wachholz

A vida de Dona Deleci ganhou um novo fôlego com a participação em um projeto que busca ampliar o protagonismo de mulheres kilombolas na defesa de seus direitos e fortalecer ações de educação antirracista. Executado pela FLD por meio do Programa de Educação Antirracista, o projeto trouxe espaços de troca, escuta e fortalecimento coletivo.

Por meio das rodas de conversa, encontros de articulação e vivências interculturais, Dona Deleci passou a compartilhar experiências com outras mulheres e a falar sobre os desafios de ser mulher negra no contexto rural. “Participar do projeto é ‘mil maravilhas’. Às vezes tem uma coisa trancada na garganta, que a gente quer desabafar e ali a gente pode.”

As atividades também se tornaram espaços de apoio e amizade. “As reuniões é um apoio que a gente tem para resolver os problemas. A gente faz muita amizade. Às vezes nem conhece, mas aí conversa e já vira amiga.”

Aos 77 anos, Dona Deleci segue cultivando a terra e compartilhando seus conhecimentos. Mesmo sem ter tido acesso à educação formal na infância, construiu uma trajetória marcada pela resistência e pela defesa de uma vida mais digna para sua família.

Dona Deleci ainda não lê os livros de papel, mas isso não impede que leia o mundo como poucos. Sua história mostra a força das mulheres kilombolas do Pampa e a importância de criar espaços onde suas vozes possam ser ouvidas.

Sua doação ajuda a criar esses espaços e a fortalecer trajetórias como a de Dona Deleci.

DOE AGORA

 

Avatar photo
Assessoria de Comunicação FLD
A Fundação Luterana de Diaconia (FLD) é uma organização da sociedade civil que defende o direito à existência com vida boa de toda a diversidade. Atua junto a grupos e comunidades promovendo e assessorando ações em agroecologia, cultura, economia solidária, justiça de gênero e étnico-racial, direitos humanos e terra e território.