Projeto OPANÁ: Chão Indígena conclui primeira etapa e abre novo ciclo de fortalecimento das comunidades Guarani do Paraná

Projeto Opaná encerra seu primeiro ciclo
Foto: Ana Paula Soukef/FLD

Depois de dois anos de trabalho contínuo nas comunidades Guarani da região Oeste e do litoral do Paraná, o projeto OPANÁ: Chão Indígena chega ao fim de sua primeira etapa com resultados que demonstram melhoria das condições de vida, fortalecimento comunitário e valorização dos saberes tradicionais indígenas. Ao mesmo tempo em que encerra esse ciclo, uma nova fase já começa a ser preparada para dar continuidade às ações e ampliar os impactos alcançados.

Desenvolvido pela Fundação Luterana de Diaconia (FLD) em parceria com a Itaipu Binacional, o projeto foi pensado para apoiar iniciativas comunitárias que articulam sustentabilidade, autonomia e cuidado com o território. A proposta nasceu do diálogo com lideranças indígenas e buscou responder a demandas concretas das comunidades, combinando conhecimentos tradicionais com soluções práticas para o cotidiano.

Para Selma Cipriano, cacica e cuidadora de um quintal produtivo no tekoha Porã, em Guaíra, o projeto OPANÁ teve um impacto importante no cotidiano da comunidade. “Eu achei muito bom, porque ajudou a comunidade aqui no tekoha. Antes a gente tinha mais dificuldade, e depois que o OPANÁ começou a trabalhar na aldeia, melhorou bastante”, afirma.

Ela também destaca o vínculo construído com a equipe do projeto e o sentimento de continuidade deixado nas famílias. “A gente comentou entre as mulheres que vai sentir falta da equipe que trabalhou com nós. Todo mundo gostou muito, principalmente quem cuida do quintal e do roçado”, relata. Segundo a cacica, o acompanhamento técnico e a presença constante da equipe fizeram diferença no dia a dia da comunidade. “Eles ajudaram bastante aqui no Porã, tanto no roçado quanto nas outras atividades. Foi um trabalho importante para nós”, completa.

Um dos eixos centrais do projeto foi o fortalecimento dos conhecimentos tradicionais e das práticas de cuidado com o território. As atividades tiveram como base a construção de Planos Comunitários, metodologia na qual as próprias comunidades debatem e definem suas prioridades e necessidades. A partir desse processo, buscou-se reconhecer e valorizar a relação histórica que o povo Guarani mantém com a terra, a floresta e a água. Nesse contexto, foram realizadas mais de quatro mil visitas técnicas e encontros, incluindo oficinas e momentos de formação, reuniões comunitárias e ações voltadas ao manejo sustentável, sempre respeitando os modos de vida e as formas próprias de organização das comunidades.

Outro eixo importante do projeto foi a promoção de iniciativas de educação antirracista voltadas ao público não indígena. Por meio de encontros, atividades formativas e espaços de diálogo, as ações buscaram ampliar a compreensão sobre a história, os direitos e os modos de vida dos povos indígenas, contribuindo para enfrentar estereótipos e preconceitos ainda presentes na sociedade brasileira. O projeto também estimulou reflexões sobre o racismo estrutural e sobre a importância de reconhecer as pessoas indígenas como sujeitas de direitos, protagonistas na defesa de seus territórios e portadoras de conhecimentos fundamentais para o cuidado com a terra e a biodiversidade.

Além dos resultados materiais, um dos principais legados do projeto OPANÁ está no fortalecimento das redes comunitárias e na ampliação do diálogo entre comunidades indígenas, organizações da sociedade civil e instituições públicas. As atividades formativas e os encontros comunitários criaram espaços de troca de experiências, onde lideranças, jovens e famílias puderam compartilhar conhecimentos e construir soluções coletivas.

Protagonismo Indígena no Projeto OPANÁ

Ao longo desses dois anos, diversas ações foram implementadas em comunidades Guarani do Paraná. Entre elas, destacam-se iniciativas voltadas à segurança hídrica, como a instalação de sistemas de captação e armazenamento de água da chuva, que ajudam a garantir água para uso em atividades produtivas. Oficinas comunitárias também promoveram a construção coletiva de calhas e reservatórios, fortalecendo o protagonismo das próprias comunidades no manejo e na manutenção das estruturas.

O projeto também incentivou práticas de cuidado com a terra e com a biodiversidade, incluindo atividades de manejo sustentável, proteção de nascentes e fortalecimento de sistemas produtivos ligados à cultura Guarani. A valorização de conhecimentos tradicionais foi um elemento central em todas as etapas, reconhecendo o papel das comunidades como guardiãs de saberes fundamentais para a preservação ambiental.

A implementação de Sistemas Indígenas de Produção Agroecológica (SIPAs), com roçados organizados em consórcio de diferentes variedades e quintais produtivos, contribuiu para fortalecer a segurança e a sustentabilidade alimentar nas comunidades. A iniciativa também incluiu a instalação de tanques elevados para a criação de peixes e a construção coletiva de chiqueiros, em sistema de mutirão, para a criação de suínos no modelo de Sistema Intensivo de Suínos Criados ao Ar Livre (SISCAL). Nesse sistema, os animais são mantidos em piquetes, priorizando o bem-estar animal e promovendo uma produção mais equilibrada, que amplia e diversifica a alimentação das famílias.

Para as comunidades envolvidas, o projeto representou mais do que a implementação de estruturas ou oficinas pontuais. Ele contribuiu para reforçar a autonomia local, ampliar e diversificar a dieta alimentar nas comunidades e para fortalecer práticas culturais que fazem parte do modo de vida Guarani, sempre em relação direta com o território, a água e a floresta. 

Natalino de Almeida Peres, cacique da aldeia Aty Miri, em Itaipulândia, destaca que o projeto representa uma conquista importante para a comunidade, especialmente pelo reconhecimento e apoio em um contexto de retomada territorial. “O OPANÁ, para nós, é uma conquista. Antes, a comunidade não tinha muita atenção, principalmente por estar em área de retomada. E com o projeto vieram benefícios importantes, como o apoio ao plantio, orientação técnica e o fortalecimento da produção. A gente aprendeu mais sobre o cuidado com os animais, com os peixes, com os porcos e também sobre o manejo da terra de forma orgânica”, afirma.

Segundo ele, além dos resultados práticos, o projeto também deixou aprendizados e experiências que permanecem. “Mesmo quando a gente não estiver mais diretamente no projeto, esse conhecimento fica. É um legado importante para a comunidade, que hoje tem mais plantio, como mandioca, milho e feijão, e também mais possibilidades de gerar renda”, ressalta.

O cacique reforça o impacto positivo da iniciativa. “No geral, é uma grande vitória para nós. O projeto trouxe conhecimento, fortaleceu a comunidade e deixou um caminho para seguir. Com trabalho e cuidado, sempre tem retorno para a comunidade”, conclui.

Carlos Benites, do tekoha Guarani em Guaíra, aponta a criação de suínos como uma das ações que mais contribuem para a segurança alimentar e a geração de renda nas comunidades. Segundo ele, a atividade fortalece tanto o sustento das famílias quanto as relações de troca e solidariedade dentro da aldeia. “A carne é muito importante para a nossa alimentação. Podemos trocar por outras necessidades e compartilhar com a família da aldeia”, afirma. A prática, incentivada pelo projeto, amplia as possibilidades de autonomia econômica e reforça dinâmicas comunitárias baseadas na cooperação.

Ações como esta, sinalizam o reconhecimento da importância de processos de longo prazo quando se trata do fortalecimento de comunidades indígenas e da proteção de seus territórios. Mais do que um projeto com início, meio e fim definidos, o OPANÁ se consolida como parte de um caminho coletivo, construído em diálogo com o povo Guarani e orientado pelo cuidado com a vida e com a terra.

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Assessoria de Comunicação FLD
A Fundação Luterana de Diaconia (FLD) é uma organização da sociedade civil que defende o direito à existência com vida boa de toda a diversidade. Atua junto a grupos e comunidades promovendo e assessorando ações em agroecologia, cultura, economia solidária, justiça de gênero e étnico-racial, direitos humanos e terra e território.