Homeopatia ganha espaço na agroecologia como aliada do manejo sustentável

Mulher indígena participando de formação em homeopatia no Paraná, promovida pela FLD.
Cristina Campos, indígena Guarani residente em uma das comunidades de Guaíra (PR), recorreu à homeopatia após perceber que as formigas estavam atacando as cenouras de sua horta. Foto: Ana Paula Soukef/FLD

A agroecologia considera as relações entre o solo, as plantas, os animais e os seres humanos de maneira interligada, articulando saberes tradicionais e conhecimentos científicos para construir sistemas produtivos mais sustentáveis e menos dependentes de insumos externos. Dentro deste contexto, a homeopatia tem grande destaque.

Diferente do modelo agrícola dominante na atualidade, que se apoia no uso intensivo de agrotóxicos, a agroecologia propõe práticas que mantêm a produtividade sem comprometer o equilíbrio ambiental e, especialmente, sem prejudicar a saúde. Seu foco também está em fortalecer a autonomia das famílias e em garantir a soberania alimentar, ou seja,  o direito das comunidades de decidir o que e como produzir. Para isso, se utiliza de recursos disponíveis no próprio território para enfrentar os desequilíbrios do ecossistema.

Um exemplo é o uso de caldas e extratos naturais, preparados com diferentes ingredientes como cebola, alho, ervas e tabaco, para o manejo de insetos e doenças. Essas misturas, de fácil preparo e baixo custo, atuam como repelentes e fortalecem as plantas. Entre elas, é conhecida a calda de fumo, utilizada no controle da lagarta do cartucho, que afeta, frequentemente, os cultivos de milho.

Homeopatia

Por meio do projeto OPANÁ: Chão Indígena, outro conhecimento vem ganhando espaço: a homeopatia. Valdeilson Ferreira de Almeida, assessor de projetos da Fundação Luterana de Diaconia (FLD) que atua junto ao Programa CAPA de Agroecologia, conta que a homeopatia tem se mostrado uma importante ferramenta de manejo agroecológico. O programa iniciou suas experiências com a homeopatia na agricultura nos anos 2003 e 2004, tornando-se, desde então, uma grande referência nessa prática.

Valdeilson explica que a homeopatia agrícola se baseia no mesmo princípio fundamental da ciência homeopática: “o semelhante cura o semelhante”. Em outras palavras, uma substância capaz de causar determinados sintomas ou desequilíbrios em um organismo, ou em um ecossistema, pode também ser usada para restabelecer seu equilíbrio.

A escolha do medicamento é feita por meio da repertorização, processo em que se cruzam os sintomas observados no ambiente ou na planta com os sintomas conhecidos dos medicamentos homeopáticos. Segundo ele, a homeopatia atua sempre pela restauração do equilíbrio, nunca pela destruição. “A ciência homeopática é uma estratégia de controle, não de extermínio. Se há um inseto causando problemas, buscamos equilibrar o sistema, e não eliminar o inseto. A homeopatia é sempre pela vida, nunca pela morte”, afirma.

Homeopatia utilizada em manejos sustentáveis.
Preparados homeopáticos que vão ajudar no manejo sustentável em comunidades indígenas do Paraná. Foto: Ana Paula Soukef/FLD

Um dos principais desafios enfrentados pelas comunidades indígenas do oeste paranaense participantes do projeto OPANÁ é o controle das formigas cortadeiras, que gera preocupação constante entre as cuidadoras e cuidadores de quintais produtivos e roçados. Para isso, explica Valdeilson, é necessário compreender o comportamento e as características desses insetos, fazendo uma analogia com o ser humano: “As formigas, quando se sentem ameaçadas, partem para o ataque. Isso faz com que o formigueiro entre em desequilíbrio”.

A homeopatia, nesse caso, não é aplicada sobre os insetos, mas sobre o formigueiro, que é entendido como um organismo coletivo. Alguns dos  medicamentos  utilizados para o controle de formigas cortadeiras são Belladonna (extraído de uma planta) e Apis (extraído das abelhas), ambos com características de agressividade e reatividade, materializando assim o princípio da cura pela semelhança.

Cristina Campos, indígena Guarani residente em uma das comunidades de Guaíra (PR), conta que recorreu à homeopatia após perceber que as formigas estavam atacando as cenouras de sua horta. Ela pendurou garrafas com o preparado homeopático de cabeça para baixo sobre os formigueiros, deixando que o líquido gotejasse lentamente ao longo dos dias. “No dia seguinte, as formigas já começaram a abandonar o formigueiro, indo para outro lugar. Hoje o problema está bastante controlado e a horta está bonita e crescendo”, relata.

Experiências como a de Cristina têm se repetido nas demais comunidades participantes do projeto. Outros medicamentos bastante utilizados são o Staphysagria, para ataques de insetos sugadores, e Silicea e Bombyx, para lagartas que atacam os roçados de milho, ambos voltados ao fortalecimento das plantas e do equilíbrio dos cultivos. Valdeilson destaca que as  medicações homeopáticas são de baixo custo, sendo uma ferramenta capaz de fortalecer não só as plantas, mas também contribuir para a autonomia das comunidades no cuidado com suas roças e hortas. O assessor ressalta ainda que a homeopatia vem se popularizando e que diferentes profissionais com formação específica na área podem exercê-la.

Opaná: Chão Indígena é uma realização da Fundação Luterana de Diaconia (FLD), por meio do Programa CAPA em parceria com a ITAIPU Binacional.

Avatar photo
Assessoria de Comunicação FLD
A Fundação Luterana de Diaconia (FLD) é uma organização da sociedade civil que defende o direito à existência com vida boa de toda a diversidade. Atua junto a grupos e comunidades promovendo e assessorando ações em agroecologia, cultura, economia solidária, justiça de gênero e étnico-racial, direitos humanos e terra e território.