Força e resistência diante das dificuldades: a história de Olga
A história de Olga Prestes Rodrigues Silva não é apenas sobre produção de alimentos ou agroecologia, mas sobre a terra e a força e resistência de uma mulher negra, kilombola e agricultora para mudar os caminhos da própria vida. Aos 59 anos, Olguinha, como é mais conhecida, moradora do Kilombo Maçambique, em Canguçu, no extremo sul do Rio Grande do Sul, é um exemplo de luta, com uma vida marcada por dificuldades, mas também por colheitas generosas.
Para entender a Olguinha, que hoje caminha feliz e orgulhosa entre uma grande diversidade de árvores frutíferas, é preciso conhecer um pouco de sua trajetória. Na juventude, enfrentou violência doméstica por anos, até chegar a uma tentativa de feminicídio. Com dois filhos pequenos, precisou fugir. “Eu passei muito trabalho e muita dificuldade. Tive que fugir com meus dois filhos pequenos. Quase morri.”
O trauma físico deixou marcas, mas foi o psicológico que mais afetou Olguinha. Sem apoio e com dois filhos pequenos, enfrentou uma depressão profunda. Depois de percorrer muitos caminhos para conseguir sustentar os filhos e passar por outra decepção, quando descobriu a infidelidade do segundo marido, fincou raízes definitivas na Comunidade Maçambique.
“Foi a terra que me puxou de volta.”
Para ela, o retorno à comunidade não foi apenas uma escolha para garantir o sustento dos filhos, mas também uma forma de reconstruir a própria vida. O contato com a terra, o cheiro do mato e a ancestralidade presente na comunidade foram importantes nesse processo.
Hoje, quem visita a propriedade de Olguinha encontra um cenário que pouco lembra sua trajetória. Em seus 7,5 hectares, cultiva hortaliças, milho, feijão, mandioca, batata-doce, flores, chás e temperos, além de mais de 30 variedades de árvores frutíferas. A produção garante o alimento da família e o excedente é compartilhado com amigos e vizinhos e, eventualmente, comercializado nas redondezas.
“Quando meus filhos e a netinha vêm me visitar, sempre levam produtos daqui. A gente gosta de partilhar.”

Há cerca de 20 anos, a Fundação Luterana de Diaconia (FLD), por meio do Programa CAPA de Agroecologia, chegou à comunidade. Desde então, Olguinha participou de grupo de artesanato, intercâmbios e viagens, conheceu pessoas e teve acesso a novos conhecimentos. Também recebeu acompanhamento produtivo, sementes e mudas.
Atualmente, recebe apoio para a manutenção de sua horta e de seu quintal agroecológico, com sementes, mudas de hortaliças e árvores frutíferas. Para ela, esse apoio vai além dos insumos.
“Quando o pessoal vem aqui, eles não trazem apenas mudas, a gente conversa, troca conhecimentos, se distrai. Nossa, o pessoal virou amigo da gente.”
Olguinha também gosta de partilhar o que cultiva. Dá mudas das suas plantas, troca flores e sementes com vizinhas e leva alguma coisa quando visita outras pessoas. A participação nas atividades do projeto também ampliou seus conhecimentos e sua percepção sobre os próprios direitos.
“Eu aprendi muito nesses anos e por essas andanças com as pessoas. Hoje sei de muitos direitos que eu não sabia. Às vezes, vendo um lugar na televisão, posso dizer que eu já estive lá.”
Para Olguinha, a agroecologia também faz parte do cuidado com a própria vida. O trabalho na terra, o cultivo dos alimentos e a convivência com as pessoas ajudam a manter uma rotina que hoje é marcada pela diversidade, pela partilha e pelo fortalecimento.
Assim como as árvores que plantou na propriedade e que, ano após ano, aprofundam suas raízes e se tornam mais fortes e produtivas, Olguinha também encontrou na terra um lugar para criar raízes e seguir sua trajetória.