Encontro fortalece identidade e organização da Pecuária Familiar Tradicional do bioma Pampa
Entre as paisagens da Serra do Caverá, no município de Rosário do Sul (RS), o Kilombo Rincão da Chirca foi sede de um importante momento de diálogo, reconhecimento e fortalecimento da Pecuária Familiar Tradicional do bioma Pampa. O encontro, realizado no dia 17 de outubro, reuniu participantes em torno de uma pauta que une identidade, território, cultura e modos de vida construídos ao longo de gerações.
Promovido pela Fundação Luterana de Diaconia (FLD) e pelo Comitê dos Povos e Comunidades Tradicionais do Pampa, o Encontro da Pecuária Familiar Tradicional do Pampa teve como um de seus principais objetivos ampliar o diálogo sobre a identidade desse grupo e as particularidades de sua relação com o bioma.
Mais do que uma atividade produtiva, a pecuária familiar tradicional está relacionada a formas próprias de viver, trabalhar e se relacionar com a terra. São práticas que fazem parte da história de famílias e comunidades e que carregam conhecimentos transmitidos entre gerações, construindo vínculos com o território e com a identidade cultural do Pampa.
Nesse contexto, o encontro representou um espaço importante para reconhecer essas trajetórias, compartilhar experiências e fortalecer a articulação entre as pessoas que vivem essa realidade.
Os conhecimentos passam de geração em geração. Tânia Gonçalves já vive essa realidade desde suas bisavós e seus bisavôs. “Viver da pecuária familiar é estar em uma comunidade familiar e viver do que se tem, do que se consome, do que se planta, do que se cria. Tu cultivar o que tu tem e usufruir disso. O carinho pelo campo, pelos nossos bichos, é uma coisa nossa, do Pampa. Não é só plantar uma pastagem ou colocar uma vaca pra engordar, tem toda uma visão e um carinho que faz ser do nosso jeito”, reafirma a jovem que concilia os estudos e o auxílio na propriedade da família.
A presença de diferentes instituições também contribuiu para aproximar experiências comunitárias e espaços de apoio à defesa dos direitos dos povos e comunidades tradicionais. A atividade contou com o apoio da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), por meio da Área de Proteção Ambiental do Ibirapuitã (APA do Ibirapuitã).

Desafios compartilhados e a força da organização coletiva
A programação também abriu espaço para refletir sobre as dificuldades enfrentadas pelas famílias que vivem da pecuária tradicional no Pampa. Entre os temas abordados estiveram as ameaças ao bioma, os desafios de acesso e a necessidade de maior reconhecimento das especificidades dessas comunidades e de seus modos de vida.
Essas questões ultrapassam a dimensão produtiva. O reconhecimento da pecuária familiar tradicional também está relacionado à valorização de identidades, práticas culturais e formas de organização que fazem parte da diversidade social e ambiental do Pampa.
Ao reunir pessoas que compartilham experiências e desafios semelhantes, o encontro contribuiu para fortalecer a compreensão de que muitas dessas dificuldades precisam ser enfrentadas coletivamente. A troca de vivências permitiu aproximar realidades, identificar demandas comuns e refletir sobre possibilidades de articulação para a defesa de direitos.
A organização coletiva ganha importância nesse processo. É por meio do diálogo entre comunidades, organizações e instituições que as demandas dos territórios podem alcançar novos espaços, contribuindo para a busca por reconhecimento, melhores condições de vida e respeito às particularidades da pecuária familiar tradicional.
Para a FLD, fortalecer esses processos significa reconhecer o protagonismo das comunidades na construção de caminhos que respeitem suas histórias, seus conhecimentos e suas relações com o território. Afinal, defender os modos de vida tradicionais também é contribuir para que a diversidade do Pampa siga viva.

Do diálogo aos encaminhamentos: passos para fortalecer a pecuária tradicional
Além das reflexões e trocas de experiências, o encontro também resultou em encaminhamentos concretos para fortalecer a organização e a busca por reconhecimento da Pecuária Familiar Tradicional do Pampa.
Um dos principais resultados foi a construção de uma autodeclaração de pecuaristas familiares tradicionais do Pampa, assinada por todas as pessoas presentes da Serra do Caverá. O documento representa um importante passo de afirmação coletiva da identidade dessas famílias e de sua relação histórica com o território.
Outro encaminhamento foi a elaboração de pedidos de melhorias a órgãos públicos, reunindo demandas relacionadas às dificuldades enfrentadas pelas comunidades. A iniciativa busca dar visibilidade às necessidades identificadas e ampliar o diálogo com instituições responsáveis por políticas e ações que impactam esses territórios.
A programação também reservou um momento para a troca de conhecimentos práticos. Ao final do encontro, as pessoas participantes acompanharam uma oficina de produção de sal marinho, utilizando práticas da homeopatia. A atividade proporcionou mais uma oportunidade de aprendizado e compartilhamento de experiências.

Entre diálogos, encaminhamentos e aprendizados, o encontro reafirmou a importância de reconhecer e fortalecer quem vive, trabalha e constrói sua história no Pampa. Um território cuja diversidade também se expressa nas pessoas, nas comunidades e nos modos de vida que fazem parte dele.
O Encontro da Pecuária Familiar Tradicional do Pampa foi apoiado pelo Projeto APA do Yvyrapitã – paisagens socioprodutivas conectando ancestralidades na Pampa, financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) no âmbito do Projeto Estratégias de Conservação, Restauração e Manejo para a biodiversidade da Caatinga, Pampa e Pantanal (GEF Terrestre), que é coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e tem o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como agência implementadora e o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade – FUNBIO como agência executora.