Projeto possibilita aquisição de equipamentos para famílias da pesca artesanal de Pelotas (RS) afetadas pela inundação histórica de 2024
Na noite da última terça-feira (24), foi realizada a primeira entrega de bens e equipamentos do projeto “Recuperação de comunidades indígenas, da pesca artesanal e empreendimentos de economia solidária afetadas pela inundação histórica no bioma Pampa”, beneficiando famílias pescadoras da Colônia Z-3, em Pelotas (RS), que ainda sentem os efeitos da inundação histórica de 2024.
A reposição de máquinas e equipamentos para famílias envolvidas diretamente na produção, agroindustrialização e comercialização, representa o fortalecimento das condições produtivas destas pessoas e assim, aumento na geração de renda.
Adriana Ebersol Chagas, pescadora artesanal e presidenta da Associação dos Feirantes Pescadores Artesanais de Pelotas, comemorou a entrega dos 40 freezers previstos nesta primeira etapa do projeto. “Na inundação de 2024, nós perdemos muita coisa, como freezer e outras estruturas utilizadas para a nossa feira do pescador. Então os itens chegaram num ótimo momento, já que semana que vem é Semana Santa e ela é a nossa principal renda no ano, pois não tínhamos onde armazenar o nosso pescado. Garanto que, em alguns dias, todos eles (freezers) estarão lotados de peixe”, comemora.
O projeto, firmado entre o Fundo Socioambiental da Caixa Econômica Federal e a Fundação Luterana de Diaconia (FLD), busca apoiar a reestruturação e a capacidade produtiva de centenas de famílias que foram duramente afetadas no desastre socioambiental de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, através da entrega de bens, máquinas e equipamentos. Ao total, o projeto prevê o investimento de cerca de R$ 3 milhões em ações de reconstrução ao longo de 18 meses.
O foco central é o apoio a 127 famílias indígenas, 203 famílias ligadas a empreendimentos de economia solidária liderados por mulheres e 40 famílias de pescadoras e pescadores artesanais. As ações abrangem os municípios de Porto Alegre, Canoas, São Leopoldo, Cachoeira do Sul, Charqueadas, Eldorado do Sul, Pelotas e Rio Grande e buscam contribuir na recuperação das condições de habitabilidade das moradias indígenas e da capacidade produtiva e de comercialização dos empreendimentos e da pesca artesanal no bioma Pampa.
Segundo Patrícia da Silva Rodrigues, coordenadora do projeto, a entrega dos equipamentos vai auxiliar, principalmente, na retomada da geração de renda para as famílias beneficiadas. “Nós, da FLD, acreditamos que a entrega destes produtos é significativamente importante, pois irá contribuir para a retomada da capacidade produtiva de forma ampla para estas famílias que tiveram seus instrumentos de trabalho perdidos com a tragédia de 2024. Certamente, durante todo esse período, precisaram elencar estratégias para a continuidade de suas atividades junto à pesca e este é, sem dúvida, um momento muito especial e de muita alegria”, conclui.

O impacto nas pessoas mais vulneráveis
A inundação de 2024 é considerada a maior crise ambiental e humanitária da história gaúcha. Conforme informações do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, mais de 2,3 milhões de pessoas foram afetadas e os prejuízos superam os R$ 4,6 bilhões, com consequências que perduram até hoje para muitas famílias. O desastre expôs ainda mais as marcas do racismo ambiental e da injustiça social.
Na região Metropolitana de Porto Alegre, muitas famílias — que já enfrentavam vulnerabilidades históricas — viram suas casas e espaços de trabalho serem tomados pela água e pela lama. Para esses grupos, muitas vezes, a residência é também o local de trabalho, onde produzem artesanato, alimentos e outros produtos.
As comunidades indígenas também sofreram com a destruição de moradias, perda de sementes tradicionais e o agravamento da insegurança hídrica. No estuário da Lagoa dos Patos, a Colônia de pescadores Z-3, em Pelotas, enfrenta um cenário de muitos desafios. Após um 2023 já difícil, a nova inundação destruiu barcos, redes, moradias, bens, máquinas e equipamentos utilizados para a produção de alimentos comercializados em feiras.
No entanto, o projeto não se limita à entrega de bens, mas busca por soluções estruturantes e sustentáveis. Uma das maiores inovações é a instalação de sistemas de captação e tratamento de água com tecnologia fotovoltaica (energia solar) em três comunidades indígenas. Isso garantirá acesso à água potável mesmo em períodos de eventos climáticos extremos, como secas ou novas cheias.
Além disso, serão entregues móveis, eletrodomésticos e utensílios de cozinha em moradias de 12 comunidades indígenas – 10 do povo Guarani Mbya e 2 do povo Kaingang -, repondo o que foi levado pelas águas. Assim, busca por melhores condições de vida e de maior dignidade para as famílias indígenas viverem e produzirem seu artesanato, que é uma prática cultural e econômica importante para a geração de renda.
Em 34 empreendimentos de economia solidária e para a Associação dos Feirantes Pescadores Artesanais de Pelotas (AFPA-Pel), da Colônia Z-3, o apoio inclui a reposição de máquinas e equipamentos, por meio do apoio direto às famílias envolvidas na produção, agroindustrialização e comercialização.
Gestão Democrática e Justiça de Gênero
O projeto se destaca também pela metodologia utilizada. A FLD implementará o conceito de gestão democrática com justiça de gênero, alinhada à sua Política de Justiça de Gênero, garantindo que as mulheres tenham voz ativa nas decisões estratégicas, visando que a recuperação não seja apenas material, mas também política e social.
“Recuperar esses empreendimentos é fundamental para restabelecer atividades econômicas essenciais, mas também para devolver a dignidade e a capacidade de atuação política dessas mulheres na sociedade”, destaca o texto do projeto.
O projeto representa um passo importante para que as populações tradicionais e periféricas do bioma Pampa não apenas sobrevivam ao desastre, mas reconstruam suas vidas com maior resiliência diante dos atuais desafios climáticos.
Projeto
Este projeto é financiado pelo Fundo Socioambiental da Caixa Econômica Federal, tendo como agente executor a Fundação Luterana de Diaconia (FLD), sob acordo de cooperação financeira nº 249/2025.