Nem Tão Doce Lar fortalece vozes e lutas no mês das mulheres
Em março, mês de luta das mulheres, a Nem Tão Doce Lar proporcionou momentos de reflexão, partilha, debate e formação de equipes, com apoio de instituições diaconais que integram a Rede de Diaconia, através da casa-exposição e de diversas atividades realizadas.
Entre os dias 11 e 13, no encontro do grupo gestor da Rede de Diaconia, em Porto Alegre (RS), a formação de abertura contou com uma assessoria em justiça de gênero para a superação da violência contra as mulheres, realizada a partir da parceria entre a FLD e a coordenação de Gênero, Gerações e Etnias da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). Na ocasião, foi apresentado o vídeo institucional da Nem Tão Doce Lar, que depois seguiu sendo utilizado como ferramenta metodológica nas formações de acolhedoras e acolhedores.
No dia 17, foram realizadas duas oficinas de formação de equipes no auditório da nova sede da Associação Beneficente Evangélica da Floresta Imperial (ABEFI), em Novo Hamburgo (RS), com a participação de 39 pessoas. E, nos dias seguintes, a casa-exposição da Nem Tão Doce Lar teve aberta à visitação no mesmo local, recebendo mais de 140 pessoas entre estudantes, educadoras e educadores do Colégio Sinodal da Paz e público geral.
Gabriela Soares Castilhos, professora de língua portuguesa e literatura do Colégio Sinodal da Paz, de Novo Hamburgo, considera que “dar espaço para que os estudantes observem, debatam e vivenciem essa experiência constitui um importante processo formativo. Trata-se de estimular a construção de uma geração mais crítica e consciente, capaz de questionar e transformar práticas de violência enraizadas na sociedade.”
Sobre a superação da violência, ela afirma que “entender que grande parte dessas agressões ocorrem no ambiente doméstico, justamente entre pessoas que, em tese, deveriam oferecer cuidado e proteção, é um dos aspectos mais complexos dessa realidade. Isso se deve, sobretudo, às sutilezas que frequentemente encobrem tais práticas, dificultando sua identificação e impedindo que sejam reconhecidas em sua real gravidade.”

Andréa Moraes Jerônimo, assistente social e integrante no Grupo de Pesquisa Gerânias da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS)/Universidade do Sul de Santa Catarina (UniSul), atuou como acolhedora na casa-exposição e disse ter sido uma experiência significativa, “possibilitando o diálogo com adolescentes a partir da exposição, a contextualização dos cenários apresentados e a construção de debates a partir das percepções e interpretações suscitadas pela atividade”.
Ela destaca que, “enquanto pesquisadora da temática da violência de gênero, avalio a formação como abrangente e qualificada, tendo abordado o tema de maneira cuidadosa, fundamentada em dados estatísticos e promovendo reflexões críticas acerca de estratégias de enfrentamento e transformação social.”
Nem Tão Doce Lar presente no estado de São Paulo
No dia 25, foi realizada uma oficina de formação de acolhedoras e acolhedores nas dependências da Paróquia Luterana do ABCD, localizada em Santo André (SP), com articulação e organização do Centro Social Heliodor Hesse. A oficina contou com a participação de 51 pessoas que integram a rede de proteção no município e na região.
“Cada grupo trouxe consigo histórias, olhares e silêncios e, talvez por isso, cada vivência tenha sido única. A metodologia, dinâmica e profundamente pedagógica, convida não apenas à reflexão, mas ao sentir. E, ao sentir, algo se desloca. Abrem-se frestas, ampliam-se percepções, e passamos, ainda que por instantes, a enxergar para além de nós mesmos. Há algo de muito bonito nisso: a possibilidade de reconhecer outras dores, outras trajetórias, outros mundos. E, assim, pouco a pouco, o olhar se humaniza, se amplia, se torna mais atento, mais cuidadoso, mais comprometido com o outro”, destaca Bianca Mueller Costa Cokeli, coordenadora executiva do Centro Social Heliodor Hesse.
Foram mais de 110 visitantes à casa-exposição, entre os dias 26 e 27, com destaque para grupo da Ordem Auxiliadora das Senhoras Evangélicas (OASE), grupo de lideranças comunitárias da 3ª Igreja Presbiteriana Independente de Santo André, integrantes do Coletivo Evangélicas Pela Igualdade de Gênero (EIG), grupo de estagiárias e estagiários do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) e um grupo de 60 educadoras da Casa do Menino de Santo André.

“Mesmo tendo o conhecimento do alto índice de violências e feminicídios e acompanhado projetos que desenvolvem o debate e a prevenção das violências contra as mulheres, a casa-exposição me afetou. Pois essa é uma realidade que, na maioria das vezes, não é sutil, mas que podemos ver e não enxergar como representação da violência doméstica e familiar”, ressalta Telma Cezar da Silva Martin, doutora em Educação.
Para ela, Nem Tão Doce Lar, de forma didática, criativa e construtiva, “contribuiu para o despertar de um olhar crítico e libertador, convocando as pessoas a assumirem o compromisso com a vida enquanto um direito humano.
Em 28 de março, nas dependências da Catedral Anglicana da Santíssima Trindade (IEAB), foi realizado um cine debate sobre o filme “Tina – A Verdadeira História de Tina Turner”, com roda de diálogo que contou com a participação de 15 pessoas. O momento foi oportuno para reanimar as lideranças religiosas a planejarem uma caminhada conjunta em temas desafiadores para as comunidades religiosas no campo do enfrentamento aos fundamentalismos e defesa de direitos das mulheres em situação de violência dentro e fora das igrejas.
Masculinidades e o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios
Nas formações, foi trabalhado especialmente o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios e suas implicações para as organizações da sociedade, escolas e rede de proteção. Fomentar a adesão dos municípios e estados ao pacto nacional é importante para que as políticas públicas de proteção às mulheres e meninas sejam priorizadas e efetivadas. O tema das masculinidades positivas e a adesão dos homens ao pacto também ganhou centralidade no debate nas oficinas.
“Esta pode ser uma ferramenta muito útil e importante para ser usada em aparelhos na rede de garantia de direitos para tratar o machismo. Levando homens e meninos para dentro deste cenário, é possível que parte de suas resistências abaixem a guarda e fiquem mais permeáveis para conhecimentos técnicos sobre os ciclos da violência e seu papel enquanto homem na trama social de manutenção das mulheres como alvo das violências por seus pensamentos, tendências e comportamentos machistas”, afirma Wadson Alonso, psicólogo Judiciário do Tribunal de Justiça de São Paulo. “Sabemos que o machismo dos homens e meninos é uma questão fundante da identidade do ‘ser homem’, indicando o trabalho árduo a ser feito.”

O pacto foi criado por decreto federal em 2023, como um conjunto de estratégias de coordenação e efetivação de políticas públicas. A coordenação central fica a cargo do Ministério das Mulheres, com participação de outros ministérios e de diferentes órgãos federais, havendo a possibilidade de adesão voluntária de estados e municípios, através de um termo de adesão. A estrutura de governança conta com Comitê Gestor e monitoramento permanente das ações. Existe a dependência de adesão dos estados e municípios para garantir maior efetividade nos territórios.
Ele está organizado em três eixos: Prevenção primária, Proteção às mulheres em situação de violência, e Responsabilização e combate à impunidade. A prevenção primária visa à mudança de concepções pré-estabelecidas e engessadas dentro de uma cultura violenta e machista, apostando na educação continuada de médio e longo prazo em justiça de gênero, para a mudança de comportamentos, especialmente dos homens.
A proteção às mulheres passa pelo fortalecimento das redes de proteção e a ampliação e qualificação dos serviços de abrigamento e centros de referência. Como também a agilidade nos encaminhamentos e nas medidas protetivas com integração do judiciário, assistência social e segurança pública.
Sobre o Mês de Luta das Mulheres
O dia 8 de março, conhecido como o Dia Internacional da Mulher, não é apenas uma data celebrativa, mas um marco da luta histórica das mulheres por equidade, direitos, respeito e justiça. Essa data surge a partir dos movimentos trabalhistas e do movimento feminista no início do século XX, quando mulheres passaram a se organizar em torno de reivindicações que previam condições dignas de trabalho, igualdade de oportunidades e o direto ao voto.
Algumas conquistas foram alcançadas com o passar do tempo e o avançar das lutas por igualdade de gênero, mas isso ainda segue sendo um desafio atualmente. Por isso, mulheres continuam lutando pela superação da violência de gênero, contra a desigualdade salarial, pela derrubada das muralhas impostas pelo patriarcado no mercado de trabalho e na política, pela ocupação dos espaços de liderança e pelo fim da cultura misógina de propagação de ódio às mulheres.
O Mês de Luta das Mulheres é um convite à toda a sociedade para repensar as estruturas rígidas que têm marcado os corpos e as vidas das mulheres ao longo do tempo. Reafirmar que uma vida sem violência é um direito humano, contribui para a denúncia da violência como uma grave violação dos direitos humanos das mulheres e meninas, afirmando que todas as pessoas têm o direito de viver em paz e em segurança.