Comunidades Avá Guarani compartilham experiências de agroecologia e fortalecimento territorial em caravana
As comunidades Avá Guarani dos municípios de Guaíra e Terra Roxa (PR) receberam, em maio, a visita de participantes da Plenária Nacional da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), realizada em Foz do Iguaçu (PR). Integrando uma das rotas das caravanas agroecológicas promovidas durante o encontro, a atividade reuniu representantes de povos indígenas, movimentos sociais, organizações da sociedade civil e redes agroecológicas de diferentes regiões do país para conhecer experiências construídas nos territórios Guarani do oeste do Paraná.
Ao longo do percurso, as comunidades compartilharam práticas de produção agroecológica, manejo de sementes e mudas, recuperação ambiental, fortalecimento cultural e organização comunitária. As pessoas participantes puderam conhecer roças diversificadas, sistemas produtivos conduzidos pelas famílias, espaços coletivos de cultivo e iniciativas voltadas à ampliação da segurança alimentar e nutricional das comunidades.
As experiências apresentadas no intercâmbio refletem processos que vêm sendo fortalecidos pelo projeto OPANÁ: Chão Indígena, política pública desenvolvida pela Fundação Luterana de Diaconia (FLD) em parceria com a Itaipu Binacional. A iniciativa atua junto às comunidades Avá Guarani do Paraná promovendo Assistência Técnica Indigenista com enfoque agroecológico, fortalecimento dos Sistemas Indígenas de Produção Agroecológica (SIPA’s), apoio às associações comunitárias, incentivo à geração de renda, ações de educação antirracista e valorização dos saberes e práticas culturais indígenas.
Mais do que aumentar a produção de alimentos, as ações desenvolvidas nos territórios buscam fortalecer a autonomia das comunidades, ampliar a diversidade alimentar e contribuir para a sustentabilidade dos sistemas produtivos. O cultivo consorciado de diferentes espécies, a preservação de variedades tradicionais, o manejo agroecológico do solo e a recuperação de áreas degradadas são algumas das estratégias adotadas pelas famílias para produzir alimentos saudáveis e fortalecer sua relação com o território.
“O território é a base para tudo. É o essencial”, afirmou a liderança Paulina Martinez durante a visita. A fala sintetiza uma compreensão compartilhada pelas comunidades: para o povo Guarani, a terra é espaço de produção, mas também de espiritualidade, pertencimento, memória e continuidade da vida. “Dizem os mais velhos que devemos levar as crianças recém-nascidas para andar na roça, para a alma ser fixada no território”, relatou.
Agroecologia e soberania alimentar nos territórios Avá-Guarani
Durante a caravana, as lideranças apresentaram diferentes iniciativas voltadas ao fortalecimento da soberania e da segurança alimentar. As roças visitadas evidenciaram a diversidade de cultivos mantidos pelas famílias, reunindo alimentos, plantas medicinais, espécies nativas e conhecimentos transmitidos entre gerações. A agroecologia aparece, nesse contexto, não apenas como uma forma de produzir, mas como uma estratégia de cuidado com a terra, com a saúde das pessoas e com a preservação da cultura Guarani.
As comunidades visitadas estão inseridas em uma região marcada por profundas transformações territoriais ao longo das últimas décadas. Apesar dos desafios enfrentados, as lideranças destacaram os esforços coletivos para fortalecer a produção de alimentos, recuperar áreas de cultivo e ampliar as condições de permanência das famílias em seus territórios.
Para Danilo Antonio Campos da Silva, cacique do povo Borum-Kren, de Minas Gerais, a visita evidenciou a importância das iniciativas agroecológicas desenvolvidas pelas comunidades. Segundo ele, a preservação da biodiversidade e o cuidado com a terra tornam-se ainda mais relevantes em uma região fortemente marcada pela monocultura. Danilo também chama atenção para os impactos ambientais decorrentes desse modelo produtivo e ressaltou a importância de fortalecer práticas que promovam saúde, alimentação adequada e equilíbrio entre as pessoas e a natureza.
A força das experiências apresentadas também foi destacada por Mariane Tupinambá, representante do Grupo de Trabalho de Agroecologia Indígena da ANA. Para ela, a visita demonstrou que os povos indígenas seguem construindo alternativas baseadas na agroecologia, na valorização dos conhecimentos ancestrais e na defesa de seus modos de vida. Segundo Mariane, as comunidades Avá Guarani mostram que é possível fortalecer a produção de alimentos e a proteção dos territórios de forma integrada.
Representando a Rede de Mulheres Negras para a Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Redessan), Thaíse Fernandes ressaltou a relação entre território, cultura e direito à vida. Para ela, as experiências compartilhadas durante a caravana demonstram como a produção de alimentos, a preservação dos saberes tradicionais e o fortalecimento comunitário caminham juntos na construção da soberania alimentar dos povos indígenas.

Ao final da visita, a caravana reafirmou a importância da agroecologia como ferramenta de fortalecimento territorial, promoção da segurança alimentar e valorização cultural. Em cada roça, viveiro, casa de reza e espaço coletivo visitado, as comunidades apresentaram não apenas formas de produção, mas modos de vida construídos a partir da relação entre território, natureza, cultura e bem viver.
“Nós continuamos firmes na luta. Não abaixamos a cabeça. Continuamos a resistir e incentivar os nossos jovens a lutar”, resumiu a liderança Ronaldo Esquivel.
A frase sintetiza a caminhada das comunidades Avá Guarani e o sentido das ações desenvolvidas pelo projeto OPANÁ: Chão Indígena. Ao fortalecer a agroecologia, a diversidade alimentar, os conhecimentos tradicionais e a organização comunitária, o projeto contribui para que as comunidades ampliem sua autonomia e sigam construindo caminhos de sustentabilidade, permanência territorial e promoção de direitos.





