Grupos de Saúde Comunitária reúnem mulheres do Vale do Taquari para troca de saberes e cuidado coletivo
A Casa Sinodal do Vale do Taquari (RS) recebeu, no dia 13 de agosto, o encontro anual dos Grupos de Saúde Comunitária, uma iniciativa acompanhada pelo Programa CAPA de Agroecologia da Fundação Luterana de Diaconia (FLD), em parceria com o Sínodo Vale do Taquari da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECBL). A atividade reuniu participantes de 14 grupos de quatro municípios para uma tarde de formação sobre homeopatia, troca de experiências, convivência e partilha de saberes.
A programação contou com uma palestra conduzida pela assessoria de projetos da FLD. A escolha do tema homeopatia partiu de uma demanda dos próprios grupos, em uma metodologia que acompanha a iniciativa desde sua origem: os conteúdos são definidos a partir das necessidades e interesses identificados junto às participantes.
Uma história construída com as mulheres
O trabalho com os Grupos de Saúde Comunitária começou em 2003, mas sua construção teve início alguns anos antes. Em 2001 e 2002, o então pastor sinodal Paulo Caer procurou o Programa CAPA de Agroecologia para pensar uma atuação conjunta com o Sínodo Vale do Taquari, especialmente junto às mulheres ligadas aos grupos da OASE. Naquele momento, havia uma preocupação com o adoecimento de mulheres ainda jovens e também com a diminuição dos grupos.
Em 2002, foi elaborado um projeto para o Programa de Pequenos Projetos da FLD e, no ano seguinte, o trabalho começou com oito Grupos de Saúde Comunitária. Desde o início, a proposta esteve voltada à educação e à promoção da saúde integral, com foco na prevenção de doenças e na busca por mais qualidade de vida. A agroecologia passou a fazer parte desse processo de forma transversal, envolvendo hortas, pomares e plantas medicinais.
Antes mesmo do início das atividades, foi realizado um planejamento participativo. As próprias mulheres identificaram os problemas de saúde mais presentes em suas comunidades e famílias e apontaram demandas e sugestões que orientaram os conteúdos dos encontros. A proposta de escutar os grupos e adaptar o trabalho às suas necessidades permanece até hoje.
Ao longo dos anos, os encontros passaram a articular formação e atividades práticas. Entre os assuntos trabalhados estão alimentação saudável, aproveitamento integral dos alimentos, uso de plantas medicinais, cuidados relacionados à pressão arterial e ao diabetes, e aproveitamento de frutas da estação, sempre pensando no autocuidado e autoestima. A experiência também inclui hortas medicinais familiares e atividades relacionadas à memória e ao uso de chás.
A procura pela continuidade do trabalho também partiu das próprias comunidades. Quando o primeiro projeto, com duração prevista de dois anos, chegava ao fim, os grupos que já participavam manifestaram interesse em continuar e outros procuraram o Sínodo para saber como poderiam integrar a iniciativa. O trabalho seguiu com novos projetos, apoiados por Pão para o Mundo, e chegou a reunir 16 e até 20 grupos. Também foram construídas parcerias com os municípios de Teutônia, Westfália, Paverama e Cruzeiro do Sul (RS).
Troca de saberes que ultrapassa os encontros
Embora tenham surgido mais próximos aos grupos da OASE, os Grupos de Saúde Comunitária foram concebidos desde o início como espaços abertos à participação da comunidade. Com o passar do tempo, foram se constituindo como grupos ecumênicos. Em diferentes localidades, mulheres de outras religiões passaram a participar dos encontros, muitas vezes a partir do convite das próprias comunidades.
Atualmente, são 14 grupos distribuídos entre Teutônia, Cruzeiro do Sul, Westfália e Paverama (RS). Teutônia concentra dez grupos, dois estão em Westfália, um em Paverama e um em Cruzeiro do Sul. A maioria deles se reúne mensalmente e alguns têm encontros a cada dois meses. A parceria com o Sínodo Vale do Taquari permanece desde o início da experiência e, atualmente, existe também um grupo de trabalho do Setor de Agroecologia e Saúde Comunitária, que reúne lideranças e representantes do Sínodo para acompanhar e dialogar sobre as atividades desenvolvidas na região.

Para Rosane, integrante do Grupo de Saúde Comunitária Despertar, de Paverama, os encontros são espaços de aprendizagem e troca. “Eu acho muito importante os nossos encontros, a gente sempre aprende muito. Eu sou apaixonada pelos grupos de saúde comunitária, a gente tem muitas trocas”, afirma. Sobre a atividade deste ano, ela conta que tinha pouco conhecimento sobre homeopatia e se surpreendeu com o conteúdo apresentado. “Fiquei muito impressionada em como funciona. A gente não faz ideia de como é”, relata.
Noeli Neitzel, integrante do Grupo de Saúde Comunitária Vida Digna, de Canabarro em Teutônia, participa da experiência desde 2006. Para ela, o encontro anual é uma oportunidade de aprofundar conhecimentos que podem ser levados para além dos próprios grupos. “Esse encontro regional de todos os grupos, que acontece uma vez por ano, é muito importante porque sempre tem um tema muito importante”, afirma. Entre os assuntos que valoriza estão saúde, produtos orgânicos e alimentação saudável. “Tudo que comemos depende a nossa saúde, a nossa vida, nosso bem-estar, que levamos para casa, não somente para a nossa família, mas para nossos vizinhos, nossos amigos e conhecidos”, destaca.
Conhecimento que se transforma em prática
Além da formação, a convivência e a partilha fazem parte da identidade dos encontros. Uma das atividades mais aguardadas é o lanche compartilhado, em que as participantes levam receitas aprendidas ao longo dos anos. Algumas preparações são feitas individualmente e outras em pequenos grupos, valorizando conhecimentos construídos coletivamente.
No encontro de agosto, o momento de partilha também integrou a programação, acompanhado de um chá organizado pelo Sínodo. A proposta retoma uma característica presente em todo o trabalho: unir conhecimento e prática, fazendo com que os conteúdos discutidos possam ser experimentados e incorporados ao cotidiano.
Os Grupos de Saúde Comunitária seguem assim uma trajetória construída ao longo de mais de duas décadas. De oito grupos iniciados em 2003 aos 14 grupos que existem atualmente, a experiência foi se transformando a partir das demandas das participantes e das comunidades. Saúde integral, agroecologia, alimentação, plantas medicinais, autocuidado, convivência e troca de saberes continuam conectando mulheres de diferentes municípios do Vale do Taquari.