Jornada Nem Tão Doce Lar fortalece rede de proteção e amplia diálogo sobre violência em Taquara (RS)
Entre os dias 14 e 16 de julho, Taquara (RS) recebeu a Jornada Nem Tão Doce Lar, iniciativa que promoveu momentos de formação, sensibilização e diálogo sobre as diferentes formas de violência que podem estar presentes no cotidiano das famílias. Articulada pelo Lar Padilha – Associação Beneficente Evangélica Floresta Imperial (Abefi), em parceria com a Fundação Luterana de Diaconia (FLD), a jornada integrou a programação da Semana Municipal de Enfrentamento à Violência Contra as Crianças (SEMANECA), que acontece no mês de aniversário do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e reuniu profissionais e representantes de diferentes organizações que integram a rede de proteção do município, além de estudantes, adolescentes, grupos de mulheres e integrantes da comunidade.
A jornada começou no dia 14 de julho, com uma oficina de formação para acolhedoras e acolhedores, realizada no Centro Cultural e Educacional – Cine Viena. A atividade reuniu cerca de 60 pessoas de diferentes organizações da rede de proteção e possibilitou reflexões sobre o ciclo da violência doméstica, a identificação de sinais e a importância de uma atuação integrada e humanizada.
Para Elissiane Vargas da Silva, coordenadora do Centro de Referência e Atendimento à Mulher (CRM) de Taquara, a formação contribuiu para qualificar o trabalho desenvolvido pela rede. “A formação oferecida pela FLD fortaleceu o trabalho da rede de atendimento, qualificando os profissionais para um acolhimento cada vez mais humanizado e sensível às famílias em situação de violência”, avalia.
No dia 15, a casa-exposição foi aberta ao público no Centro Comercial. A solenidade de abertura contou com a presença de autoridades do Executivo e do Legislativo municipal e representantes dos conselhos municipais. Na ocasião, Altemir Labes, coordenador-geral da Abefi e presidente do Conselho Deliberativo da FLD, destacou dados sobre a violência no Rio Grande do Sul e a necessidade de fortalecer ações de sensibilização e as redes de proteção.
Ao longo dois dias, mais de 260 pessoas visitaram a casa-exposição e participaram de rodas de conversa sobre prevenção, relacionamentos saudáveis, identificação de sinais de violência, formas de denúncia e serviços de proteção disponíveis no município. A casa-exposição recebeu estudantes de escolas municipais, adolescentes residentes no Lar Padilha, grupos de mulheres, integrantes da Patrulha Maria, da Brigada Militar, e do Plantão Psicológico da Faculdade Integrada de Taquara (FACCAT), além de outras pessoas da comunidade.

Uma casa que convida a olhar para a violência
A Nem Tão Doce Lar reproduz uma típica residência brasileira e transforma seus cômodos em espaços de reflexão. Em cada ambiente, objetos, cenas e detalhes revelam pistas e sinais de diferentes formas de violência, muitas vezes naturalizadas ou invisibilizadas no cotidiano.
Um prato virado para baixo, um porta-retrato quebrado ou um cinto sobre a cama podem parecer elementos comuns, mas, no contexto da exposição, ajudam a construir narrativas sobre situações de violência vivenciadas dentro de casa. A proposta é convidar quem visita a observar, imaginar e refletir sobre aquilo que nem sempre é percebido à primeira vista.
As turmas de estudantes também são estimuladas a interpretar as cenas e criar possíveis histórias para as pessoas que poderiam viver naquela casa. A partir dessas interações, novas ideias e situações são incorporadas às edições seguintes da exposição, ampliando sua capacidade de dialogar com diferentes públicos.
Para Vinicius Costa, estudante de Psicologia e estagiário do Plantão Psicológico da FACCAT, a experiência foi significativa tanto profissional quanto pessoalmente. “A exposição ‘Nem Tão Doce Lar’ foi uma experiência rica, significativa e, ao mesmo tempo, pesada, mas necessária”, relata.
Segundo ele, a visita à casa-exposição permitiu perceber como a violência pode estar presente de forma sutil em situações naturalizadas do dia a dia. Após a visita, ele acompanhou uma roda de conversa com estudantes de uma escola do município. “Alguns alunos já demonstravam certo conhecimento sobre o tema, enquanto outros se surpreendiam com o que foi discutido, um sinal de esperança de que estamos no caminho certo ao ensinar as crianças a não repetir os estigmas de gerações anteriores”, afirma.
Anelise Fabiana Paiva, cientista social e educadora, também acompanhou grupos de adolescentes durante a visitação. Para ela, ouvir as interpretações de jovens sobre as cenas apresentadas ampliou a percepção sobre a importância de iniciativas de conscientização. “Caminhar dentro desta casa-exposição nos coloca diante de diversas histórias reais acontecendo ali, simultaneamente”, afirma. “Através de momentos de conscientização como este, podemos ajudar a construir no nosso presente outras histórias de vida que não estejam marcadas e não sejam interrompidas pela violência.”

Prevenção e fortalecimento da rede
Para Elissiane, a realização da Jornada teve um significado especial justamente por possibilitar que o município trabalhasse a prevenção. “No CRM, geralmente acolhemos as mulheres quando a violência já aconteceu. Por isso, poder desenvolver uma ação voltada à prevenção tem um valor imenso”, destaca. Ela também avalia que a casa-exposição possibilitou uma experiência marcante para estudantes, profissionais e para a comunidade ao estimular reflexões sobre o ciclo da violência e suas diferentes manifestações. “Levar esse tema ao diálogo com a comunidade escolar e ao público em geral é uma forma muito efetiva de promover conscientização e prevenção”, afirma.
Luciana Santos Hoffmann, presidenta do Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Taquara, considera que a iniciativa representou um marco de sensibilização e reflexão sobre a violência doméstica e familiar contra as mulheres no município. Para ela, a experiência contribuiu para provocar questionamentos e reforçar a necessidade de mudanças na sociedade.
Ela também destaca a importância da capacitação realizada durante a jornada, que, segundo ela, proporcionou momentos de aprendizado, reflexão e construção coletiva de conhecimentos, reforçando a necessidade de interromper o ciclo da violência e de fortalecer uma atuação integrada, humanizada e comprometida. “A violência doméstica precisa ser tratada de forma aberta, sem tabus e sem ocupar apenas um espaço secundário nas políticas públicas. Esse tema precisa estar no centro das discussões e das ações governamentais, recebendo a atenção que sua gravidade exige”, defende.

A realização da Jornada Nem Tão Doce Lar em Taquara reforça, assim, a importância da articulação entre organizações, serviços públicos e comunidade para enfrentar as violências e fortalecer caminhos de prevenção e proteção. Ao levar o debate para dentro de uma casa simbólica e, a partir dela, para escolas, serviços e espaços comunitários, a iniciativa contribui para ampliar a capacidade de reconhecer sinais, romper silêncios e construir relações mais humanas e protegidas.
Participaram da articulação no município, além do Lar Padilha – Abefi, o Centro de Referência e Atendimento à Mulher (CRM), o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (COMDIM), o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (COMDICA) e o Conselho Municipal de Assistência Social (COMAS).