No Agosto Lilás, jornadas da Nem Tão Doce Lar mobilizam o Pampa em defesa das mulheres

Nem Tão Doce Lar no Agosto Lilás 2026
Em Alegrete (RS), pessoas dos equipamentos públicos participaram da Oficina de formação. Foto: Arquivo FLD

Durante o mês de agosto, a casa-exposição itinerante Nem Tão Doce Lar, da Fundação Luterana de Diaconia (FLD), esteve em dois municípios do bioma Pampa, no Rio Grande do Sul. As jornadas aconteceram em Rosário do Sul, de 11 a 14, e em Alegrete, de 18 a 21, reunindo profissionais da rede de proteção, estudantes, organizações da sociedade civil, agentes públicos e comunidade para refletir sobre as diferentes formas de violência doméstica e familiar.

Realizadas durante o Agosto Lilás, campanha nacional de conscientização e enfrentamento à violência contra as mulheres, as duas jornadas também marcaram os 20 anos da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006). A iniciativa da FLD, que igualmente completa duas décadas de existência em 2026, utiliza uma casa montada com objetos, mensagens e situações do cotidiano para provocar um olhar atento para violências que, muitas vezes, permanecem ocultas dentro dos lares.

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Um dos cômodos da casa-exposição montada em Rosário do Sul (RS). Foto: Daniela Huberty/FLD

Uma rede mobilizada em Rosário do Sul

Em Rosário do Sul, a jornada contou com o apoio da Associação Rosariense de Mulheres Ana Terra, que articulou diferentes organizações e serviços do município. Integraram o grupo operacional a Secretaria Municipal do Trabalho, Habitação e Assistência Social, a Procuradoria da Mulher ligada ao Poder Legislativo, a Sala Lilás, o Conselho Municipal de Direitos das Mulheres e o Comitê de Povos e Comunidades Tradicionais do Pampa.

A programação começou com uma formação voltada a profissionais da rede local de proteção, realizada no auditório da Câmara Municipal de Vereadoras e Vereadores, reunindo 50 pessoas. O momento também contou com a participação de representantes da ONG Amoras, de Alegrete, que compartilharam experiências e metodologias desenvolvidas a partir de sua atuação com a Nem Tão Doce Lar.

Nos dias seguintes, a casa-exposição foi aberta ao público na sede do Sindicato dos Comerciários. Ao longo de três dias, recebeu cerca de 200 pessoas, entre estudantes do Ensino Fundamental de escolas públicas, agentes de saúde, participantes do Programa Mulheres Mil, desenvolvido pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul, pessoas de equipamentos públicos, mulheres beneficiárias do projeto de culinária e geração de renda da Associação Ana Terra e público em geral,

Para Ana Andreazza, integrante da Associação das Mulheres Rosarienses Ana Terra, participar de todas as etapas da jornada, da articulação à montagem da casa e ao acolhimento de visitantes, mostrou a força da construção coletiva. “A montagem da casa e o acolhimento possibilitaram tornar visível uma realidade que, muitas vezes, permanece escondida dentro dos lares.”

Segundo Ana, a experiência também reforçou a importância de envolver crianças e jovens na discussão. “A nova geração precisa conhecer essa realidade para construir novas posturas e novas formas de convivência”, afirma.

Staël Soraya dos Santos Rosa, professora e integrante do Comitê dos Povos e Comunidades Tradicionais do Pampa, do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), e do Coletivo Feminista Uru_Elas do município de Uruguaiana (RS), também participou da jornada. Para ela, a metodologia ajudou a ampliar a percepção sobre as violências e sobre a necessidade de uma atuação articulada.

“A exposição nos capacitou para termos um olhar treinado para identificar sinais das agressões físicas, psicológicas, sexuais, patrimoniais e morais”, relata. Para Staël, depois de percorrer os cômodos e reconhecer os sinais apresentados pela casa, a roda de conversa permite transformar o incômodo em palavra e reflexão. “É preciso primeiro aprender a enxergar as violências que a sociedade historicamente treinou os olhos para ignorar.”

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Oficina de formação realizada em Rosário do Sul (RS) reuniu cerca de 50 participantes. Foto: Daniela Huberty/FLD

Alegrete recebe a terceira jornada no Agosto Lilás

Na semana seguinte, foi a vez de Alegrete receber novamente a Nem Tão Doce Lar. Esta foi a terceira edição da iniciativa no município, que mantém uma parceria com a ONG Amoras desde 2018. A casa-exposição foi montada pela organização, com apoio logístico da Prefeitura Municipal. Nesta edição, a Comunidade Luterana e o Sínodo Centro-Campanha Sul também estiveram diretamente envolvidos no apoio à realização da jornada.

A formação de acolhedoras e acolhedores aconteceu no auditório da Santa Casa de Misericórdia de Alegrete e reuniu 42 profissionais das áreas de saúde, educação e assistência, além de representantes de comunidades religiosas e organizações da sociedade civil. A exposição recebeu mais de 460 estudantes dos Ensinos Fundamental e Médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA), de escolas públicas e privadas, além de equipes do Centro de Referência no Atendimento às Mulheres (CRAM) e agentes de saúde.

Para Nariele Maciel Poitevin, voluntária da ONG Amoras, vivenciar novamente a exposição é uma experiência que mobiliza diferentes sentimentos. “Trabalhar com esse tema atemporal é ir além, é alcançar algo que os olhos não veem, é tocar o coração de quem viveu ou vive uma situação de violência”, afirma. Ela destaca ainda a dimensão do acolhimento que acontece durante a visitação. “Estar lá, durante a exposição, é muitas vezes dar colo, dar ouvidos, dar força e também receber.”

Débora Falcão, técnica de enfermagem e assistente social que atua no Ambulatório LGBT, Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas (CAPSad), participou da formação e disse que a atividade contribuiu para reconhecer sinais que podem passar despercebidos no cotidiano e reforçou a importância de uma escuta sem julgamentos.

“É importante que a vítima saiba que não está sozinha, independente das suas escolhas naquele momento”, afirma. Para Débora, profissionais que atuam na rede precisam desenvolver empatia e sensibilidade para estabelecer vínculos de confiança e respeitar o tempo de cada pessoa.

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Uma das rodas de conversa realizada após a visitação na casa-exposição montada em Alegrete (RS). Foto: Arquivo FLD

Reconhecer a violência para poder enfrentá-la

Nas duas cidades, a proposta da Nem Tão Doce Lar foi além de apresentar informações sobre os diferentes tipos de violência. A experiência busca provocar uma mudança no olhar: reconhecer que a violência pode estar presente em situações naturalizadas do cotidiano e que seu enfrentamento depende de informação, acolhimento, articulação da rede e transformação das relações.

A casa-exposição reproduz ambientes comuns de uma residência, como sala, quarto e cozinha. Em cada espaço, objetos, mensagens e outros elementos funcionam como pistas de situações de violência física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. A visita é acompanhada por mediação e, posteriormente, por uma roda de conversa.

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Em detalhes, a casa-exposição faz refletir sobre a violência que está presente nos lares. Foto: Rogério Aguiar/FLD

A metodologia parte justamente daquilo que, muitas vezes, não é imediatamente percebido. Em Alegrete, Débora lembrou que, depois da agressão, podem aparecer gestos que integram o chamado ciclo da violência. “Após agressão, sempre vem aquele arrependimento acompanhado de flores e bilhetes jurando mudança”, relata. É nesse processo de reconhecer sinais, conversar sobre eles e fortalecer a capacidade de acolhimento que a Nem Tão Doce Lar atua.

Em Rosário do Sul e Alegrete, as jornadas mostraram que enfrentar a violência contra as mulheres exige mais do que ações pontuais: requer redes articuladas, profissionais preparadas e preparados e comunidades dispostas. As atividades realizadas em agosto integram o compromisso da FLD com a defesa de direitos e com a construção de relações mais justas, seguras e livres de violência.

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Assessoria de Comunicação FLD
A Fundação Luterana de Diaconia (FLD) é uma organização da sociedade civil que defende o direito à existência com vida boa de toda a diversidade. Atua junto a grupos e comunidades promovendo e assessorando ações em agroecologia, cultura, economia solidária, justiça de gênero e étnico-racial, direitos humanos e terra e território.