Intercâmbio promove experiências em Sistemas Agroflorestais e agroecologia
Entre os dias 11 e 13 de agosto, aconteceu o curso e intercâmbio de experiências em Sistemas Agroflorestais (SAFs) e Agroecologia do projeto “Restauração ecológica com promoção da sociobiodiversidade e da segurança alimentar em Comunidades Kilombolas por meio de Quintais Agroflorestais e SAFs” e do Programa “Recupera Rural RS”. A atividade reuniu 36 pessoas dos municípios de Canguçu, São Lourenço do Sul, Pelotas, São José do Norte e Estrela.
Promovida pela Fundação Luterana de Diaconia (FLD), por meio do Programa CAPA de Agroecologia, e em parceria com a Embrapa Cascata, o evento proporcionou três dias de troca de conhecimentos e experiências relacionadas aos SAFs com foco na agroecologia, na restauração ecológica e na viabilidade produtiva e econômica do sistema. Além disso, a atividade também buscou valorizar e integrar os territórios e comunidades, a cultura local, a alimentação agroecológica e a troca de saberes e de materiais genéticos entre agricultoras e agricultores.
A proposta do curso
O curso e o intercâmbio integram as ações de formação do projeto de restauração e visam promover o aprofundamento e a troca de conhecimentos sobre implantação, manejo e uso de quintais e sistemas agroflorestais.
A proposta proporciona às famílias agricultoras, comunidades kilombolas, agentes socioambientais e equipes técnicas contato com diferentes experiências e conhecimentos sobre SAFs, aproximando pesquisa, conhecimento técnico e saberes construídos nos territórios.
De acordo com Amanda Novo, assessora de projetos da FLD, a atividade buscou promover a circulação do conhecimento sobre o sistema em suas mais diversas esferas. “Ao longo dos três dias, buscou-se trabalhar diferentes dimensões dos Sistemas Agroflorestais, abordando os princípios e a sucessão, o manejo, a experiência da pesquisa e a produção agroecológica. Também foram debatidos aspectos sobre o beneficiamento, comercialização, retorno econômico, restauração e conservação ambiental, além da análise econômico-ecológica dos sistemas”, relata.

Integração de conhecimentos
Com a intenção de aliar a teoria com o conhecimento prático, o curso desenvolveu os conceitos teóricos diretamente nas experiências práticas de pesquisa, como áreas na Embrapa Cascata e em propriedades de famílias agricultoras nos municípios de Canguçu e São Lourenço do Sul.
As pessoas participantes puderam ter contato com os princípios que regem os SAFs, assim como técnicas para a sua instalação e manutenção. Além disso, foram discutidos aspectos da sucessão ecológica, trabalhando a compreensão de que um SAF é um sistema dinâmico, que se transforma ao longo do tempo conforme as espécies se desenvolvem e ocupam diferentes espaços e funções.
Para Itauane Lima de Quevedo, da Comunidade Kilombola do Monjolo, de São Lourenço do Sul, “o intercâmbio de experiências de Sistemas Agroflorestais foi de grande importância, pois o curso permitiu uma nova experiência de conhecimento e troca de saberes com pessoas de outras localidades do estado.”
Houve espaço para a troca de sementes, mudas, bulbos e outros materiais de propagação trazidos por participantes, que mantêm vivas e preservadas espécies selecionadas ao longo de gerações pelas famílias. Estas se adaptam melhor às condições climáticas da região e auxiliam no convívio e na mitigação das mudanças climáticas, que também afetam duramente os modos de vida e produção das famílias. “Esse foi um momento importante de circulação da agrobiodiversidade e também dos conhecimentos associados às espécies e variedades mantidas nos diferentes territórios”, avalia Amanda.

Visitas a campo
Durante o curso, foram realizadas visitas a propriedades nos municípios de Canguçu e São Lourenço do Sul que possuem SAFs consolidados. Na propriedade agroecológica Vida na Terra, além de conhecerem práticas e manejos, foi possível visitar a agroindústria familiar, onde são produzidos sucos orgânicos a partir das frutas produzidas no sistema. “A experiência possibilitou relacionar o manejo agroflorestal com a produção, o beneficiamento e a comercialização dos alimentos, mostrando na prática como os SAFs contribuem para a geração de renda e autonomia das famílias agricultoras”, explica Amanda.
No último dia de atividades, o grupo visitou a propriedade de Günter Timm Beskow, onde está localizado o Centro de Educação Ambiental da Mata Atlântica (CEAMA), em São Lourenço do Sul. Lá foi possível conhecer a trajetória de recuperação e preservação ambiental desenvolvida na propriedade com a educação ambiental e conservação da Mata Atlântica. A experiência trouxe o debate sobre a restauração ecológica a partir de uma iniciativa construída ao longo de muitos anos, relacionando recuperação de áreas degradadas, conservação da biodiversidade, educação ambiental e produção sustentável a partir da comercialização de sucos orgânicos e agroecológicos oriundos do seu SAF.
Durante a visita, foi realizada a análise econômico-ecológica do SAF da propriedade por meio do método LUME. Essa atividade permitiu observar o sistema para além da produção ou do retorno financeiro isolado, mas considerando diferentes dimensões e relações presentes existentes.
“Para nós o curso também reforça que restaurar não é simplesmente plantar árvores. É pensar a paisagem junto com as pessoas que vivem nos territórios, fortalecendo autonomia, diversidade, segurança alimentar e sistemas produtivos mais resilientes. Ver as pessoas trocando contatos, sementes, ideias e já pensando no que poderiam levar para suas propriedades mostra que o curso e o intercâmbio cumpriram esse papel”, completa Amanda.

O projeto e a restauração ecológica
O projeto “Restauração ecológica com promoção da sociobiodiversidade e da segurança alimentar em Comunidades Kilombolas por meio de Quintais Agroflorestais e SAFs” tem como objetivo apoiar as ações de restauração ecológica, fortalecimento da sociobiodiversidade e promoção da soberania e segurança alimentar em 10 comunidades kilombolas na região sul do RS, por meio da valorização de práticas tradicionais e ancestrais e do diálogo entre diferentes conhecimentos.
Ao longo do projeto, devem ser instalados sete Sistemas Agroflorestais e 100 Quintais Agroflorestais, além de ações relacionadas à restauração de nascentes e ao acesso e armazenamento de água. Está previsto o plantio de 10 mil mudas de espécies arbóreas, além dos cultivos anuais, com ações envolvendo diretamente 108 famílias nos municípios de Canguçu, Pelotas, São Lourenço do Sul e São José do Norte.
Os SAFs e Quintais Agroflorestais são trabalhados não apenas como áreas destinadas à restauração ambiental, mas como espaços de produção de alimentos, conservação da biodiversidade e fortalecimento da sociobiodiversidade. As espécies utilizadas também levam em consideração os diferentes usos e significados para as comunidades, como alimentação, medicina tradicional, espiritualidade e artesanato.
O projeto é viabilizado por meio da política pública de Reposição Florestal Obrigatória (RFO) da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (SEMA/RS), com recursos da empresa CPFL Transmissão S.A.