Comunidades Guarani do Paraná ampliam acesso ao saneamento ecológico com a construção de banheiroárvores

Comunidades Guarani do Paraná ampliam acesso ao saneamento ecológico com a construção de banheiroárvores
Foto: Fabio Conterno/FLD

O acesso ao saneamento básico é um direito fundamental e está diretamente relacionado à saúde, à qualidade de vida e à dignidade das pessoas. Em muitas comunidades indígenas, a ausência de infraestrutura adequada ainda representa um desafio cotidiano. A utilização de estruturas improvisadas, como as chamadas latrinas de cova ou banheiros buraco, pode expor as famílias a animais, moscas e outros insetos transmissores de doenças, além de oferecer pouca privacidade e apresentar riscos de contaminação do solo e dos recursos hídricos.

Nas comunidades Guarani do Paraná, famílias têm participado da implantação de uma alternativa de saneamento ecológico: o banheiroárvore. A iniciativa integrou as ações do projeto OPANÁ: Chão Indígena, desenvolvido pela Fundação Luterana de Diaconia (FLD) em parceria com a Itaipu Binacional, e busca ampliar o acesso a condições sanitárias mais adequadas por meio de uma tecnologia simples, de baixo custo e que não utiliza água.

A mudança nas condições de uso do banheiro já é percebida pelas famílias. No Tekoha Pohã Rendá, em Terra Roxa, no oeste do Paraná, o cacique Gilberto Benites destaca os benefícios da nova estrutura, especialmente para mulheres e crianças.

“Foi muito útil para a comunidade. Antes, a gente só tinha o buraco, sem cobertura, sem uma estrutura adequada. Esse banheiro ajudou bastante, principalmente as mulheres e as crianças. Quando chovia, era difícil, e aqui também tem bastante mosquito e pernilongo. A gente tinha dificuldade até para fazer as necessidades por causa dos insetos. Agora, com a cobertura e a casinha fechada, não entra chuva e temos mais proteção. As pessoas da comunidade ficaram muito felizes com essa conquista”, relata Gilberto.

A construção das estruturas envolve a participação direta das comunidades, desde a definição do modelo de banheiro, a escolha dos locais até a execução e a manutenção dos. Com assessoria técnica e acompanhamento do projeto, as famílias também participam dos processos de formação e das decisões relacionadas à implantação da tecnologia, considerando as condições de cada território e os materiais disponíveis localmente.

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Foto: Fabio Conterno/FLD

Uma tecnologia simples e participativa

Conhecido internacionalmente como Arborloo, o sistema consiste em uma fossa seca, relativamente rasa, protegida por uma estrutura de madeira que abriga o banheiro. Uma de suas características é a possibilidade de deslocamento da estrutura quando a cava atinge sua capacidade de utilização. Assim, o local anterior pode passar por um processo de recuperação e receber o plantio de uma árvore.

A construção prioriza o aproveitamento de materiais como madeira, madeirite naval e telhas ecológicas. O modelo permite que as famílias participem de todas as etapas, favorecendo a apropriação da tecnologia e a continuidade dos cuidados necessários ao funcionamento do sistema.

O uso é simples: após cada utilização, uma pequena quantidade de terra seca, cinzas ou serragem é adicionada à cava. Esse material ajuda a reduzir odores e a presença de moscas, além de contribuir para o processo de decomposição dos resíduos orgânicos. Quando a cava atinge aproximadamente 80% de sua capacidade, a estrutura é transferida para um novo local, e a anterior recebe uma camada de terra e folhas.

Depois de encerrado o uso, o local pode receber o plantio de uma muda de árvore, conforme as orientações técnicas de manejo e segurança sanitária. A proposta permite associar o tratamento dos resíduos ao plantio de espécies frutíferas e nativas, contribuindo também para a recuperação ambiental e, no caso das frutíferas, para a diversidade alimentar das famílias. Entre as espécies que podem ser utilizadas estão bananeiras, mamoeiros, goiabeiras, abacateiros e mangueiras, além de árvores nativas adequadas às condições de cada território.

A escolha do banheiroárvore para as comunidades Guarani do oeste do Paraná considera dois desafios importantes: a escassez de água e a necessidade de ampliar o acesso a condições adequadas de saneamento. Segundo a arquiteta Leila Paschoalloto, responsável pelo projeto e pelo acompanhamento técnico das instalações, a tecnologia reúne benefícios sanitários, ambientais e sociais.

“Do ponto de vista da saúde pública, o banheiro seco reduz a exposição das fezes humanas e contribui para interromper o ciclo de contaminação fecal-oral e a proliferação de vetores, principalmente moscas. Além disso, não utiliza água limpa, um recurso limitado nessas comunidades e que precisa ser priorizado para o consumo e as necessidades das famílias”, explica.

Leila também destaca a contribuição ambiental do sistema. A utilização de uma fossa rasa, associada ao processo de compostagem, permite o tratamento dos resíduos e, após o período adequado de repouso e conforme as orientações sanitárias, o aproveitamento do local para o plantio de árvores. “É uma tecnologia de baixo custo, que utiliza recursos disponíveis no território e transforma uma questão sanitária em uma possibilidade de recuperação ambiental, contribuindo para o plantio de novas árvores nas comunidades”, afirma.

Outro aspecto considerado na escolha do modelo é sua adequação à organização dos espaços nas comunidades Guarani. A construção pode ser realizada em mutirão, com materiais locais e acessíveis, e respeita a disposição tradicional dos ambientes de uso cotidiano.

“Na cultura Guarani, o espaço destinado às necessidades fisiológicas fica fora da casa de dormir e da cozinha, a uma distância que garante privacidade e tranquilidade. O banheiroárvore permite respeitar essa dinâmica de uso e os costumes da comunidade, ao mesmo tempo que oferece melhores condições sanitárias”, acrescenta a arquiteta.

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Foto: Fabio Conterno/FLD

Saneamento ecológico e cuidado com o território

A implantação do banheiroárvore exige cuidados específicos para garantir seu funcionamento e reduzir riscos à saúde e ao ambiente. A profundidade da cava, a distância em relação ao lençol freático e as características do solo precisam ser consideradas na escolha do local.

O manejo também prevê a utilização regular de terra, cinzas ou serragem, o monitoramento da capacidade da cava e a transferência da estrutura quando necessário. Após o encerramento de uma cava, é importante respeitar o período de repouso e as recomendações técnicas antes de qualquer utilização da área. O plantio de hortaliças que entram em contato direto com o solo, por exemplo, não é indicado nesse local.

Embora represente uma alternativa para melhorar as condições sanitárias, o sistema não substitui outras medidas de saneamento, como o manejo adequado das águas residuais e a disponibilidade de estruturas para higienização das mãos. Por isso, a assessoria técnica e a formação das famílias são partes importantes do processo.

A utilização de soluções alternativas de saneamento também encontra respaldo na legislação brasileira. A Lei Federal nº 11.445/2007, que estabelece as diretrizes nacionais para o saneamento básico, prevê a consideração das características locais e regionais e admite soluções individuais de esgotamento sanitário na ausência de redes públicas, desde que atendidas as exigências sanitárias e ambientais. Essa previsão é especialmente relevante em territórios rurais e indígenas, onde as condições geográficas e territoriais demandam alternativas adequadas às realidades de cada comunidade.

A adoção do banheiroárvore amplia as possibilidades de acesso ao saneamento ecológico em territórios onde a infraestrutura convencional nem sempre está disponível. Por dispensar o uso de água, a tecnologia também pode ser uma alternativa em locais com limitações no abastecimento hídrico.

Para além da construção das estruturas, a iniciativa integra um conjunto de ações voltadas à melhoria das condições de vida das comunidades Guarani. A participação das famílias nas decisões e no manejo fortalece a autonomia comunitária e permite que a tecnologia seja incorporada de acordo com as características e necessidades de cada território.

A implantação dos banheiros-árvore integra esse esforço de ampliação do acesso a políticas públicas e de fortalecimento das iniciativas comunitárias. Com a participação e o protagonismo Guarani, o projeto OPANÁ: Chão Indígena busca articular saneamento, cuidado com o território, recuperação ambiental e melhores condições de vida para as famílias.

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Assessoria de Comunicação FLD
A Fundação Luterana de Diaconia (FLD) é uma organização da sociedade civil que defende o direito à existência com vida boa de toda a diversidade. Atua junto a grupos e comunidades promovendo e assessorando ações em agroecologia, cultura, economia solidária, justiça de gênero e étnico-racial, direitos humanos e terra e território.