Presença Guarani na Jornada de Agroecologia fortalece o diálogo entre ancestralidade, território e produção de alimentos
A diversidade de saberes que caracteriza a Jornada de Agroecologia ganhou ainda mais significado com a presença de famílias Avá e Mbya Guarani do Paraná. Mulheres, homens, jovens e crianças participaram intensamente da programação por meio de um intercâmbio cultural promovido pela FLD por meio do projeto OPANÁ: Chão Indígena.
Ao longo dos dias de encontro, as delegações indígenas acompanharam debates, oficinas, rodas de conversa e atividades culturais, compartilhando experiências construídas em seus territórios e fortalecendo o diálogo com agricultoras e agricultores, pesquisadoras e pesquisadores e movimentos sociais de diferentes regiões do país. Mais do que uma visita, a participação representou um encontro entre diferentes formas de produzir conhecimento, reafirmando que a agroecologia também nasce da memória, da espiritualidade e das relações que os povos originários estabelecem com seus territórios.
Para Mailete Gonçalves, da comunidade Tekoha Pohã Renda, a experiência foi marcada pelo aprendizado coletivo e pela participação das crianças, que vivenciaram a Jornada como um espaço de descoberta. “Eu gostei muito da Jornada. Foi muito boa para todos nós. As crianças também gostaram, aprenderam muita coisa e participaram de tudo com alegria. Foi uma experiência muito bonita, divertida e cheia de aprendizados.”
A presença das crianças, acompanhando as atividades e convivendo com diferentes experiências agroecológicas, também expressou um dos princípios compartilhados entre o povo Guarani e a agroecologia: o conhecimento se fortalece quando é vivido coletivamente e transmitido entre as gerações.

Benzimento de sementes reafirma a conexão entre ancestralidade e agroecologia na jornada
Um dos momentos mais marcantes da programação foi a realização das cerimônias conduzidas pelos xamoĩ Guarani, que reuniram participantes da Jornada para rezas tradicionais e o benzimento de sementes, mudas e alimentos. Os rituais reafirmaram a profunda relação entre espiritualidade, cultivo e cuidado com a vida, aproximando diferentes públicos dos conhecimentos ancestrais preservados pelos povos indígenas.
Para Ismael Martins Rodrigues, cacique do Tekoha Karumbey e liderança Avá Guarani, participar da Jornada foi uma oportunidade de dialogar com outras realidades, compartilhar os desafios enfrentados pelas comunidades e mostrar que os conhecimentos tradicionais seguem vivos. “Foi muito importante estar na Jornada para ouvir outras pessoas e compartilhar o que nós vivemos. Falamos sobre sementes, mudas, agroecologia e sobre os impactos que sofremos com o uso dos agrotóxicos perto das nossas comunidades. Esses espaços ajudam as pessoas a conhecerem melhor a realidade do povo Guarani”, avalia o cacique.
Durante a cerimônia, Ismael também destacou o significado espiritual do benzimento realizado pelos xamoĩ. “Quando benzemos as sementes, as mudas e os alimentos, mostramos que nossa tradição continua viva. Assim como outras religiões têm seus líderes espirituais, nós temos os nossos xamoĩ, que cuidam da nossa relação com a terra, com as sementes e com a vida. É uma forma de mostrar a força do nosso povo e do nosso modo de viver.”
Ao refletir sobre a relação entre alimentação, floresta e saúde, a liderança lembrou que a agroecologia faz parte da própria história do povo Guarani. “Antigamente, a floresta nos dava tudo: água limpa, frutas, mel, peixes, remédios e alimentos saudáveis. Nós plantávamos sem veneno e vivíamos dessa diversidade. Hoje convivemos com a contaminação causada pelos agrotóxicos e isso afeta nossa alimentação, nossa saúde e o nosso território. Defender a agroecologia também é defender a nossa forma de existir”, conclui Ismael.

Ao integrar esses momentos à programação, a Jornada ampliou o diálogo entre diferentes formas de compreender a produção de alimentos. Os conhecimentos tradicionais indígenas encontraram espaço ao lado das experiências agroecológicas desenvolvidas por agricultoras e agricultores familiares, demonstrando que tradição, ciência e práticas populares podem caminhar juntas na construção de sistemas alimentares mais saudáveis, diversos e sustentáveis.
Para Erby Borgella, assessor de projetos da FLD no Projeto OPANÁ: Chão Indígena, acompanhar as comunidades durante a Jornada reafirma a importância de criar espaços onde os povos indígenas sejam reconhecidos como protagonistas. “Participar da Jornada ao lado das comunidades foi um privilégio. O benzimento das sementes foi um dos momentos mais marcantes de todo o encontro, porque revelou a profundidade da cultura e da espiritualidade Guarani. Garantir a presença das comunidades nesses espaços fortalece sua identidade, amplia o sentimento de pertencimento e faz com que seus conhecimentos sejam reconhecidos e respeitados. Foi uma experiência de muito aprendizado para todas as pessoas que participaram”, afirma.
A participação das famílias Avá e Mbya Guarani reafirmou que a agroecologia não se limita às técnicas de produção agrícola. Ela também é construída a partir das relações de cuidado com a terra, da preservação das sementes, da transmissão dos conhecimentos entre gerações e do respeito aos modos de vida dos povos originários.