Posicionamento do Sínodo Sudeste acerca do Carnaval 2020

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Posicionamento do Sínodo Sudeste acerca do Carnaval 2020

Posicionamento do Sínodo Sudeste acerca do Carnaval 2020
Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil
17/02/2020

* Sobre a missão da IECLB e o lugar de testemunho da fé.
* O samba enredo: sua mensagem, algumas afinidades e limites à luz da Bíblia e da confessionalidade luterana.
* A IECLB não participará do desfile como instituição. Reconhece múltiplos lugares como espaços de testemunho da fé em Cristo. Em todos temos um chamado ao zelo bíblico e confessional.
* Fortalecemo-nos como Igreja quando reconhecemos as muitas formas de testemunhar com convicção e fé o nome de Jesus Cristo.

“Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem,” (João 10.14).

A IECLB tem como missão propagar o Evangelho de Jesus Cristo, estimular a sua vivência pessoal na família e na comunidade e promover a paz, a justiça e o amor na sociedade brasileira e no mundo (Art. 3º da Constituição da IECLB). Para dentro de quais espaços a IECLB é chamada a dar testemunho de Jesus Cristo? Em quais espaços ela está disposta a fazê-lo? Quem o fará?

Estas e outras perguntas muito nos ocupam ao longo da história e também no início de 2020. A motivação específica é a possibilidade de participação da IECLB no desfile de carnaval que o Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira (Mangueira) promove neste ano na cidade do Rio de Janeiro. A Mangueira propõe em seu samba enredo falar de Jesus. Imagina ele nascido na periferia da cidade do Rio de Janeiro, no Morro da Mangueira, entre as pessoas da favela. Canta o “Jesus da gente”, ou seja, o Jesus de quem vive ali e sofre marginalização por cor de pele (negra), pela origem (indígena) ou por ser mulher. Conclui que este “Jesus da gente” também hoje morreria, vítima da intolerância e violência.

Três aspectos chamam a atenção no samba enredo: 1ª) a denúncia da difícil realidade de vida nas periferias da cidade, sobretudo no Morro da Mangueira; 2ª) a mensagem de fé que aponta para a presença de Jesus, por ser onipresente, neste contexto de periferia; 3ª) a mensagem política/econômica que clama por partilha e fala do “Messias de arma na mão”.

A mensagem do Jesus na periferia, identificado com a pessoa pobre, solidário às pessoas em sua realidade de vida, não é nova para as comunidades da IECLB. Também o tema da intolerância religiosa nos é precioso e reiterado no meio ecumênico ou na vivência inter-religiosa. Some-se a isto o histórico da IECLB de ser uma Igreja dialogal, aberta e que sabe dar razão da sua fé.

Visto a partir de uma perspectiva ampla, o samba enredo e os carros alegóricos da Mangueira não configuram ofensa para a fé cristã de confessionalidade luterana. Esta avaliação decorre da leitura do texto que fundamenta o samba enredo e do relato de ministros e ministra da IECLB que participaram de reunião na escola de samba e puderam ver as alegorias. Entretanto, não sejamos ingênuos: o samba carioca vive também de surpresas. Algo pode não ter sido mostrado, pode ser pensado posteriormente ou mesmo não ser percebido por quem lá esteve.

Olhando para detalhes do samba enredo, há questões críticas e afirmações que somente podem ser reconhecidas como hipóteses ou figuras de linguagem. A comparação de José a um desempregado é um exemplo. Em nenhum lugar da Bíblia se diz que José era desempregado, mas também não se diz que ele sempre tinha trabalho. No campo da suposição, José poderia ser um carpinteiro empregado ou desempregado. Na favela talvez viveria de bicos. A análise em detalhes encontrará incongruências sob a perspectiva bíblica ou confessional. Mas também em nossas vidas há contradições e há incoerências. Mesmo sendo pessoas batizadas e justificadas por Deus, não estamos livres da ambiguidade. Fazemos o bem, porém também praticamos o mal. Por consequência, resta a pergunta sobre como nossa vida e conduta são avaliadas por Deus e pelas pessoas.

Sob a perspectiva da fé cristã só podemos confirmar a frase “Nem messias de arma na mão”. Jesus Cristo, o Messias, não veio ao nosso encontro de arma na mão. Veio em forma de criança pobre, nasceu numa estrebaria de animais e teve como primeiro berço um coxo de animais (Lucas 2). Confrontado com uma situação de violência e com a possibilidade de uso do poder no momento de sua prisão, Jesus Cristo disse a um discípulo: guarde a sua espada (Mateus 26). No samba enredo, a referência à arma tem conotação política, uma vez que são conhecidos os gestos de arma e propostas de flexibilização da posse de armas. No ambiente de extrema polarização política reside aqui uma grande parte da tensão. Como a Igreja se posiciona? Por um lado, a Igreja defende a liberdade de expressão e reconhece que cada pessoa tem a liberdade de escolher o seu projeto político. Por outro lado, a Igreja afirma que a posse de armas não soluciona o problema da segurança pública. Arma não é instrumento pacificador. É mecanismo de morte. Mas também não podemos deixar de perguntar se a referência ao “punho cerrado” é representação adequada para uma proposta de paz ou referência política. Como Igreja também não compactuamos com fatos ocorridos em escolas de samba do Rio de Janeiro, tais como envolvimento com jogo do bicho e o tráfico de drogas. Da mesma forma, temos o cuidado de não “romantizar” o desfile do carnaval e achar que ele resolverá os problemas sociais.

Muitas pessoas e comunidades refletiram a possível participação da IECLB no desfile da Mangueira. Também o Sínodo Sudeste e a presidência da IECLB o fizeram. Houve longas conversas, visita ao pavilhão da Mangueira, conferência de ministras e ministros do Núcleo Rio de Janeiro, reunião da Diretoria do Sínodo, cartas, manifestações e preocupações saudáveis de cuidado com a expressão coletiva da fé e a edificação de comunidades. Todo este processo mostrou que não há consenso em torno do tema e por isso consideramos:

a) A participação no desfile carnavalesco levanta a pergunta pela compreensão do que é sagrado e profano. Reconhecemos que “sagrado” não é somente o espaço reservado de uma comunidade. Sagrado é o espaço ocupado por Deus. Sagrado está ali onde Cristo está e onde as pessoas o testemunham. Mesmo assim, a perspectiva da fé de quem entende o sagrado de forma diferente merece consideração e respeito.

b) O desfile não é proposição do Sínodo Sudeste, de suas comunidades ou da IECLB como instância nacional. É um convite que abre a possibilidade de nos unirmos a um evento cultural e festivo. Também isto não é novidade na IECLB. Em diversos momentos ministras, ministros e lideranças da IECLB marcam presença em solenidades públicas, em festas populares, em eventos culturais. Tais ocasiões são oportunidade de nos apresentarmos para a sociedade com uma mensagem cristã. No caso do desfile carnavalesco, a mensagem seria: nossa fé não exclui o povo da periferia e nós nos esforçamos para estar ali também com a vivência da paz, da justiça, do perdão, da vida e da salvação.

c) Reconhecemos virtudes no samba enredo e o direito de uma escola de samba se manifestar religiosa e politicamente. Mesmo assim, como instituições, a IECLB e o Sínodo Sudeste não indicarão representante para participação no desfile da Mangueira. Se alguém da IECLB decidir por participação, esta ocorrerá em caráter particular e oramos para que aconteça com zelo pela expressão coletiva da fé.

d) Todas as pessoas são chamadas para serem testemunhas de Jesus Cristo. Este chamado reafirmamos como IECLB. Compreendemos que todos os espaços são legítimos para a expressão da fé cristã por crermos que Cristo pode estar em todos os lugares. Por isso conclamamos cada pessoa a testemunhar Jesus Cristo neste carnaval, não importando onde, se em culto comunitário, em um retiro, em um bloco de rua ou na avenida do samba. Testemunhar significa dar expressão e forma da fé em Cristo. Significa dar expressão ao perdão, à vida plena e à salvação.

e) Somos uma igreja plural na expressão da fé e por isso as manifestações são plurais. Conviver na pluralidade já é, por si só, um belo testemunho da fé em Cristo. Por vezes temos falhado neste aspecto e as manifestações nas redes sociais atestam a falha. Por isso nos dirigimos aos grupos que formam a “IECLB virtual”. Também este é espaço de testemunho cristão, de respeito às pessoas, de edificação da “IECLB real”, esta que se reúne face a face em diversos espaços. A teologia luterana destaca que somos pessoas justas e pecadoras ao mesmo tempo. Todas as pessoas! Por isso, tenhamos cuidado ao apontar o dedo para supostos pecados das outras pessoas. Cada qual analise a sua vivência e deixe a Deus os julgamentos. Deus não necessita de promotoras ou promotores de acusação, mas nos chama para ser testemunhas que praticam o amor e a justiça. Há que se distinguir entre a necessária denúncia profética e a dispensável acusação moralista.

f) Por um lado, queremos ter ousadia na missão. Por outro lado, não queremos escandalizar. Somente o cuidado pastoral e o amor às pessoas podem dizer quando um ou outro precisam ser enfatizados. O cuidado pastoral e o exercício do amor também nos fazem perceber que não conseguimos criar unanimidade em torno do assunto. Esta não é a preocupação maior. A preocupação maior está com a expressão de respeito aos diferentes jeitos de testemunhar o nome de Jesus Cristo. Assim como o corpo de Cristo não é formado por um só membro, também o Cristo morto e ressuscitado não é plenamente testemunhado de uma só maneira. Nossa grande chance está no propósito de construir diferentes formas de testemunho da fé sem comprometer a unidade. Nossa grande chance está em reconhecer que o testemunho da fé em Cristo é exercido nas comunidades, mas que precisamos de aproximação com quem hoje ainda não alcançamos. Sem espaços de aproximação também será pequena a esperança de que novas possibilidades de anúncio da mensagem evangélica de paz, justiça, perdão, vida e salvação em Cristo se concretizem.

Como interlocutores oficiais da Igreja neste caso indicamos o coordenador local do colégio de ministras e ministros e o Pastor Sinodal do Sínodo Sudeste.

Que Deus estenda sua mão sobre nós e abençoe as possibilidades que se nos apresentam neste carnaval.
São Paulo, véspera do carnaval de 2020.

A Diretoria do Conselho Sinodal

Nota: A Presidência da IECLB apoia os encaminhamentos feitos pelo Sínodo Sudeste e o posicionamento emitido pela sua Diretoria.

Porto Alegre, fevereiro de 2020
Presidência da IECLB